SAÚDE
Entenda se canetas emagrecedoras podem reduzir risco de câncer de mama
Obesidade é fator de risco comprovado para doença, situação que se agrava após a menopausa


Medicamentos utilizados no tratamento da obesidade, como a semaglutida e a tirzepatida (substância presente em canetas emagrecedoras), estão sendo investigados por um possível efeito redutor no risco do câncer de mama.
Estudos iniciais apresentam resultados promissores, mas especialistas alertam que ainda não existem evidências científicas suficientes para comprovar a eficácia na prevenção da doença.
Uma das hipóteses para o efeito benéfico é de que a redução da perda de peso e a melhoria na saúde metabólica proporcionadas pelos medicamentos, possam contribuir para diminuir fatores associados ao desenvolvimento de determinados tumores. O fato ocorre porque a obesidade é fator de risco comprovado para o câncer de mama, situação que se agrava após a menopausa.
Em entrevista ao portal A TARDE, a oncologista Marília Sampaio, da clínica AMO, explica que alguns estudos identificaram uma menor ocorrência da doença entre mulheres que utilizavam medicamentos que atuam no receptor de GLP-1, hormônio intestinal que estimula a liberação de insulina.
Uma das análises, realizada com quase 150 mil mulheres, apontou uma associação com redução de aproximadamente 30% na incidência do câncer de mama.
"Em mulheres que já receberam o diagnóstico, estudos retrospectivos também encontraram associações com menor mortalidade e melhores desfechos", explicou a especialista.
No entanto, apesar dos resultados, a médica ressalta que ainda não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre o uso dos medicamentos e a prevenção da doença.
"Diferenças nas condições de saúde, nos tratamentos e no acompanhamento das pacientes podem influenciar os resultados", pontuou.

Canetas emagrecedoras não devem ser prescritas para prevenir câncer
À reportagem, a endocrinologista Mariana Lopes, do Hospital da Bahia, reforça que a semaglutida e a tirzepatida são importantes para o tratamento da obesidade, mas não devem ser prescritas especificamente para prevenir o câncer de mama.
“Não podemos concluir que esses benefícios se traduzam necessariamente em redução da incidência de câncer em mulheres tratadas com essas medicações”, afirma.
Segundo a especialista, as pesquisas ainda apresentam limitações, como o tempo de acompanhamento das pacientes e a dificuldade de distinguir os efeitos diretos dos medicamentos daqueles provocados pelo emagrecimento.

Como a obesidade aumenta o risco de câncer de mama?
A relação entre obesidade e câncer de mama envolve alterações hormonais, metabólicas e inflamatórias provocadas pelo excesso de gordura corporal, que tende a se agravar após a menopausa, mas que é um risco em todas as idades.
"Essa associação parece mais forte entre mulheres que eram magras no início da vida adulta, reforçando a importância de prevenir o ganho excessivo de peso ao longo dos anos", enfatizou Sampaio.
De acordo com Marília Sampaio, o tecido adiposo não funciona apenas como reserva de energia. Ele também participa da produção de hormônios e substâncias que podem favorecer o desenvolvimento de determinados tipos de câncer.
"Quando o tecido adiposo cresce muito, parte das células de gordura passa a sofrer falta de oxigênio e morre", disse.
Uma dessas substâncias é o estrogênio, que estimula a multiplicação das células mamárias e que, em níveis elevados, pode favorecer alterações relacionadas ao desenvolvimento de tumores. Em adição, a obesidade reduz a produção da proteína SHBG, que normalmente "sequestra" o estrogênio no sangue e o mantém inativo.
"Com menos dessa proteína disponível, sobra mais estrogênio livre circulando e agindo sobre o tecido mamário, o que se soma ao estrogênio extra já produzido pela própria gordura [...] Esse hormônio estimula as células da mama a se multiplicarem continuamente. Isto, em excesso, aumenta a chance de erros no DNA e de mutações que dão origem ao câncer”, explicou a oncologista.
Esse mecanismo ganha importância após a menopausa, quando os ovários reduzem significativamente a produção hormonal e o tecido adiposo passa a ser uma das principais fontes de estrogênio.
Além disso, a obesidade pode provocar resistência à insulina e inflamação crônica, condições que também participam de processos associados ao desenvolvimento de determinados tipos de câncer. Antes da menopausa, entretanto, a relação entre o excesso de peso e a doença é mais complexa e varia conforme o subtipo do tumor.
"A insulina em excesso também consegue agir diretamente sobre as células mamárias, estimulando-as a crescer e dificultando sua morte natural, que é o mecanismo pelo qual o organismo normalmente elimina células defeituosas", justificou.
O excesso de insulina ajuda a aumentar a quantidade de estrogênio livre no sangue, de modo que as vias hormonal e metabólica se retroalimentam.

Emagrecer pode reduzir o risco da doença
A perda de peso sustentada está associada à redução do risco de câncer de mama. Segundo Marília Sampaio, uma análise com mais de 180 mil mulheres com 50 anos ou mais identificou uma redução relativa de 18% a 32% no risco da doença entre participantes que perderam peso de forma sustentada e não utilizavam terapia hormonal após a menopausa, em comparação àquelas que mantiveram o peso.
"Entre as explicações biológicas estão a redução da produção de estrogênio pelo tecido adiposo e a melhora de alterações metabólicas relacionadas à obesidade. O objetivo é reduzir o excesso de gordura corporal, preservando a massa muscular", disse Marília.
A endocrinologista Mariana Lopes destaca que o tratamento da obesidade precisa considerar a saúde de forma integral, e não apenas a redução dos números na balança.
Entre as recomendações estão:
- Alimentação equilibrada;
- prática regular de atividade física;
- cuidado com o sono;
- redução do consumo de álcool e cigarro;
- exames preventivos;
- atenção à saúde mental.
"A prevenção e o tratamento da obesidade precisam ser sustentáveis e considerar a realidade de cada pessoa. Não se trata de buscar um padrão estético, mas de melhorar a saúde metabólica e reduzir fatores de risco ao longo da vida", enfatizou Lopes.
A alimentação deve priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, como:
- Frutas;
- verduras;
- legumes;
- feijões;
- cereais integrais;
- fontes adequadas de proteínas.
“É importante reduzir o consumo frequente de ultraprocessados, bebidas açucaradas e alimentos com alta densidade energética e baixo valor nutricional", acrescentou Mariana.
A atividade física também é fundamental com a combinação de exercícios aeróbicos com treinamento de força ajuda no controle do peso, que melhora a sensibilidade à insulina, preserva a massa muscular e contribui para a saúde cardiovascular.
"A recomendação geral para adultos é acumular pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, respeitando as condições clínicas individuais", disse Mariana.
Essas medidas contribuem para reduzir fatores de risco e melhorar a saúde ao longo da vida, mas não eliminam 100% a possibilidade de desenvolvimento da doença.

Diagnóstico de câncer de mama levou paciente a mudar hábitos
A importância do cuidado integral com a saúde reflete na história de Viviane Galina, de 47 anos. A representante comercial, que vive entre a Bahia e Sergipe, recebeu o diagnóstico de câncer de mama em julho de 2024. Antes de descobrir a doença, ela mantinha uma rotina intensa de viagens profissionais, com horários irregulares para as refeições e pouca atividade física.
"Priorizava mais o trabalho, tava sempre naquela loucura, aí quando você via, não tinha tomado café, não almocei bem [...] eu acabava fazendo uma caminhada ou outra quando meu esposo tinha disponibilidade, então o sobrepeso tava ali", explicou Viviane.
Apesar de realizar acompanhamento ginecológico regular, ela não tinha conhecimento sobre a associação entre excesso de peso e câncer de mama. O diagnóstico ocorreu durante um ultrassom, que foi marcado acidentalmente.
"Eu tive um carocinho na minha perna, nada grave, mas que que tava me incomodando porque ele tava crescendo. Ela [a médica] me indicou um médico para fazer a retirada desse caroço, e ele pediu um ultrassom de partes moles só para a gente ter certeza. Eu devia tá distraída e acabei entregando os exames que eu iria realizar dali a seis meses. No dia que eu cheguei para fazer o ultrassom, eu me dei conta e acabei tendo fazendo [todos os exames]", relatou ao portal A TARDE.
Na ocasião, o médico identificou alterações na mama direita que não estavam presentes nos exames realizados cerca de sete meses antes. Após a investigação, ela recebeu o diagnóstico de carcinoma invasivo e descobriu a presença de dez tumores.
"Foi um um baque, um medo absurdo de morrer. Você fica sem chão e foi a pior notícia que eu recebi na minha vida toda", lembrou.
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A paciente passou por cirurgia e quatro ciclos de quimioterapia. Durante o tratamento, enfrentou fadiga intensa e dificuldades para manter atividades cotidianas, além dos desafios emocionais provocados pela doença.
A experiência transformou sua relação com a saúde. Ela passou a organizar melhor as refeições, consumir mais frutas, legumes e proteínas, além de dar maior atenção à atividade física, ao descanso e à saúde mental.
"Estabeleci deixar algumas misturas que possam congelar, porque isso ajuda bastante no dia a dia para mais praticidade e para não ter desculpa. Comecei a incluir mais proteína na minha alimentação, troquei meu jogo de panela de teflon por cerâmica e inox, procurei tirar o açúcar...", citou.
Desta forma, Viviane alerta sobre a importância de não adiar os cuidados preventivos.
"Não deixe de fazer seus exames, não tenha medo, e procure mudar seus hábitos. Bons hábitos melhoram tudo no corpo. Melhoram o fluxo da mente, do intestino, melhora até seu humor", finalizou.

Mamografia deve ser feita a partir de 40 anos
Para mulheres com risco habitual, a Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Febrasgo recomendam a realização anual da mamografia entre 40 e 74 anos. Já mulheres com risco elevado podem precisar de acompanhamento individualizado.
"Essas informações devem ser reunidas em uma avaliação individual de risco, que pode contar com calculadoras validadas. Conforme o resultado, podemos indicar aconselhamento genético, adaptar o rastreamento, acrescentar ressonância magnética ou discutir medicamentos para redução de risco. Ter um familiar com câncer não significa, automaticamente, precisar de teste genético ou de exames mais frequentes”, sinaliza Marília.
Mulheres de alto risco podem precisar de acompanhamento mais precoce e de exames adicionais. Já um nódulo novo, uma alteração na pele ou uma secreção suspeita pelo mamilo precisam ser investigados em qualquer idade, sem esperar a próxima mamografia.
Canetas emagrecedoras não substituem exames preventivos
Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida ganharam espaço no tratamento da obesidade, mas a associação com a redução no risco de câncer ainda é objeto de investigação científica.
Embora as pesquisas sobre os possíveis efeitos das canetas emagrecedoras na prevenção do câncer sejam promissoras, as especialistas destacam que esses medicamentos devem ser utilizados apenas quando houver indicação clínica.
"A semaglutida e a tirzepatida não devem ser prescritas com a finalidade específica de prevenir o câncer de mama", destacou Mariana Lopes.
Além disso, o uso dessas medicações não substitui a mamografia nem outras medidas de prevenção e diagnóstico precoce. Portanto, enquanto a ciência investiga se os medicamentos para emagrecer podem oferecer benefícios adicionais contra o câncer de mama, o controle da obesidade, a adoção de hábitos saudáveis e o acompanhamento médico permanecem entre as principais estratégias de cuidado com a saúde feminina.
"São necessários estudos prospectivos, preferencialmente randomizados, com acompanhamento prolongado e desfechos oncológicos bem definidos", finalizou Marília.



