ESTUDO
Vacina contra Covid reduz em 82% risco de doença ocular rara
Pesquisa também encontrou associação protetora após vacinas contra HPV e herpes-zóster


A vacinação contra a covid-19 foi associada a uma redução de 82% no risco de desenvolvimento de uveíte idiopática, uma doença ocular rara que pode comprometer a visão.
O efeito foi observado até três meses após a imunização, segundo estudo publicado no American Journal of Ophthalmology.
A pesquisa também identificou associação entre menor risco da doença e as vacinas contra HPV, varicela e herpes-zóster. Os pesquisadores avaliaram pessoas vacinadas entre 2006 e 2025 e as compararam a indivíduos não imunizados com características semelhantes.
Vacinas foram associadas a menor risco de uveíte
Entre as pessoas vacinadas contra a covid-19, o risco de desenvolver uveíte idiopática foi 82% menor três meses após a imunização. A redução chegou a 75% em seis meses e 65% após um ano.
Os pesquisadores também encontraram resultados semelhantes para outras vacinas. Depois de 12 meses, a imunização contra varicela esteve associada a uma redução de 71% nos casos de uveíte, enquanto a vacina recombinante contra herpes-zóster apresentou redução de 69%. Para a vacina contra HPV, o percentual foi de 56%.
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A uveíte é uma inflamação que atinge a úvea, estrutura localizada na região intermediária do olho. Entre os sintomas estão dor, vermelhidão, sensibilidade à luz, visão embaçada e pontos ou manchas no campo visual.
Dependendo da área afetada e da intensidade da inflamação, a doença pode comprometer a visão.
O que explica a possível proteção?
Os autores do estudo avaliam que a associação pode estar relacionada à forma como as vacinas interferem na resposta do sistema imunológico.
No caso dos imunizantes contra varicela e herpes-zóster, há uma relação mais direta. O vírus varicela-zóster é conhecido por estar associado a quadros de uveíte.
Para as vacinas contra covid-19 e HPV, uma possível explicação seria uma modulação mais ampla do sistema imunológico.
O estudo, porém, investigou especificamente casos de uveíte idiopática, em que não é identificada uma causa específica para a inflamação.
Especialista pede cautela com resultado
A oftalmologista Vanessa Rocha, do CBV-Hospital de Olhos, ressalta que os resultados precisam ser interpretados com cautela. Segundo ela, por ser uma pesquisa retrospectiva e observacional, o trabalho identifica uma associação, mas não estabelece relação de causa e efeito.
“Os achados do estudo fornecem evidências preliminares de um possível benefício protetor da vacinação contra diversas doenças virais sobre a incidência de uveítes.”
A médica também chama atenção para casos de recorrência da inflamação ocular após a vacinação contra a covid-19 em pessoas que já tinham histórico de uveíte.
Uma pesquisa publicada em 2024 encontrou aumento do risco de uveíte após a vacinação entre pessoas com antecedente da doença, embora outros trabalhos tenham apresentado resultados diferentes.
“Nesses casos, devemos considerar a atividade da doença, causa, imunossupressão e benefícios da vacina para aquele paciente”, afirma Vanessa.
Estudo abre nova frente de investigação
Apesar das limitações, a oftalmologista considera que os resultados podem contribuir para novas pesquisas sobre a relação entre vacinação e uveíte.
“O que o estudo mostrou foi que, para a população geral, existe uma possível associação protetora das vacinas contra a incidência de uveíte idiopática, questão ainda pouco investigada e potencialmente relevante para a saúde pública”, afirma Vanessa Rocha.


