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Do deserto à neve: casal revela como é cruzar a América do Sul de carro

Mauro e Vanessa transformaram viagens de carro em aventuras pelo Brasil e países vizinhos

Iarla Queiroz
Por
Registros das viagens de Mauro e Vanessa
Registros das viagens de Mauro e Vanessa - Foto: Arquivo Pessoal | Leitor de A Tarde

Viajar de carro pode ser muito mais do que simplesmente escolher um destino, colocar as malas no porta-malas e seguir viagem. Para o casal Mauro e Vanessa, a estrada virou uma forma de conhecer lugares, descobrir paisagens pouco exploradas, fazer amizades e colecionar histórias que dificilmente caberiam em uma viagem convencional.

Ao longo dos anos, os dois passaram a percorrer diferentes regiões do Brasil e países da América do Sul em expedições que misturam trechos de asfalto, terra, areia, neve e até acampamentos em condições extremas.

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A maior delas levou o casal até Ushuaia, na Argentina, em uma jornada de aproximadamente 13 mil quilômetros que durou 23 dias. A viagem, porém, não ficou marcada apenas pela distância percorrida. Para Mauro, ela ganhou um significado ainda maior por ter sido a última grande viagem que fez de carro ao lado do filho, João Vítor, que morreu aos 18 anos.

Não deixa pra amanhã. Tá com vontade de conhecer, vai conhecer logo, porque amanhã a gente não sabe. Resume Mauro, ao lembrar das experiências vividas na estrada.
Registros das viagens de Mauro, Vanessa e João Vitor
Registros das viagens de Mauro, Vanessa e João Vitor - Foto: Arquivo Pessoal | Leitor de A Tarde

Tudo começou antes das grandes expedições

A história do casal com as viagens começou de maneiras diferentes. Vanessa sempre teve o hábito de viajar e conhecer os lugares para onde ia, enquanto Mauro já carregava uma relação antiga com o universo off-road.

A paixão pelos veículos começou ainda nas trilhas de moto e ganhou outro capítulo quando ele comprou uma Engesa em 2004. O modelo, de origem nacional e ligado à produção de veículos militares, passou a ser usado em trilhas pesadas.

Foi justamente entre amigos que surgiu a ideia de transformar as aventuras mais curtas em viagens cada vez maiores.

A primeira grande expedição foi para o Deserto do Atacama, no Chile. Na época, sem a estrutura tecnológica disponível atualmente, o grupo utilizava mapas impressos e precisava planejar cuidadosamente os deslocamentos.

Depois disso, vieram viagens pelo Brasil, Argentina e Chile, além de outras experiências internacionais que não foram feitas de carro, como passagens por Vietnã e Itália.

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De São Paulo ao Atacama: destino que marcou Vanessa

Entre tantos lugares visitados, o Atacama ocupa um espaço especial para Vanessa.

A primeira experiência dela no deserto chileno aconteceu de maneira diferente: Mauro fez parte do percurso de moto, enquanto Vanessa viajou de avião acompanhada de João Vítor, que na época tinha apenas sete anos. Os dois se encontraram no destino.

Foi a primeira viagem internacional de Vanessa com o enteado e também uma das primeiras grandes experiências dos dois juntos fora do Brasil.

Por isso, mesmo depois de conhecer tantos outros lugares, o deserto continua sendo o destino preferido dela.

O Atacama tem San Pedro de Atacama como principal base para os passeios. Entre os atrativos mais conhecidos estão o Vale da Lua, Vale da Morte, Salar de Atacama, Lagunas Altiplânicas, Piedras Rojas e os gêiseres de El Tatio.

Saindo de Salvador, a viagem de carro até San Pedro de Atacama passa da marca dos 4,4 mil quilômetros por estrada, antes mesmo de considerar os deslocamentos internos pelo deserto.

Para quem chega ao destino, a distância, porém, é recompensada por uma paisagem completamente diferente do cenário brasileiro. O Atacama reúne vulcões, salares, lagoas, gêiseres e formações rochosas, além de uma das experiências de céu noturno mais procuradas pelos visitantes.

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Ushuaia: 13 mil km e uma memória para a vida inteira

Se Vanessa escolhe o Atacama, Mauro não hesita ao apontar Ushuaia como sua viagem preferida.

A expedição até a cidade argentina durou 23 dias e somou cerca de 13 mil quilômetros. No caminho, o grupo passou por diferentes cidades e destinos, incluindo Montevidéu e Puerto Madryn.

E essa é justamente uma das principais diferenças que Mauro enxerga entre viajar de carro e simplesmente chegar de avião ao destino final.

“Eu conheço pessoas que já foram pro Ushuaia e foram de avião. Aí eu gosto de brincar com a pessoa e falo: ‘Pô, você conheceu Puerto Madryn?’. ‘Não, não sei o que é Puerto Madryn’”, contou.

Para ele, a estrada permite transformar o caminho em parte da viagem.

Em Puerto Madryn, por exemplo, a região é conhecida pela observação de fauna marinha e por experiências que podem incluir a presença de baleias, lobos-marinhos e orcas, dependendo da época.

Durante a passagem pelo Uruguai, o grupo chegou a trocar uma cara ceia de Natal no hotel por uma parrilla improvisada na praia. Com churrasqueira e estrutura de acampamento, eles prepararam a própria ceia e ainda receberam um cumprimento da polícia local.

“Já valeu a viagem”, foi a reação de João Vítor diante daquela comemoração improvisada.

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Neve, barraca congelada e uma regra: ninguém fica para trás

As expedições também já levaram o casal para regiões de neve nos Andes.

Em Torres del Paine, no Chile, eles fizeram parte do famoso Circuito W e caminharam cerca de 22 quilômetros em um dos dias da viagem. À noite, dormiram em uma barraca de teto.

Quando acordaram, perceberam que uma camada de neve havia descido da montanha durante a madrugada.

A experiência se repetiu de outra maneira em Villa Pehuenia, na Argentina, onde o grupo precisou contratar um guia para enfrentar a neve.

E essa é uma das principais lições de Mauro e Vanessa para quem pretende começar: nem toda aventura precisa ser feita sozinho.

Em terrenos desconhecidos ou com condições que exigem conhecimento específico, como neve e trilhas mais técnicas, o acompanhamento de profissionais pode fazer toda a diferença.

No grupo deles, existe ainda uma regra considerada quase sagrada: ninguém fica para trás.

Se um veículo quebra, se alguém atola ou surge qualquer outro problema, todos param para ajudar.

Registros das viagens de Mauro e Vanessa
Registros das viagens de Mauro e Vanessa - Foto: Arquivo Pessoal | Leitor de A Tarde

O Brasil também virou cenário de grandes aventuras

Embora as viagens internacionais tenham grande espaço na história do casal, algumas das experiências mais marcantes aconteceram dentro do próprio Brasil.

Uma delas foi uma travessia pelo sertão da Bahia, passando por trechos de areia pesada e comunidades isoladas.

Segundo Vanessa, em determinados pontos era possível percorrer apenas cerca de 70 quilômetros em três ou quatro horas por causa das condições do terreno.

O trajeto também levou o grupo a conhecer moradores de pequenas comunidades, comer na casa de pessoas da região e visitar iniciativas locais relacionadas à produção de doces e derivados de buriti.

A experiência acabou mostrando ao casal uma outra face do turismo: aquela em que o destino não está necessariamente em uma atração famosa, mas no contato com quem vive no caminho.

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Registros das viagens de Mauro e Vanessa - Foto: Arquivo Pessoal | Leitor de A Tarde

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Jalapão vai muito além das fotos das dunas

Outro destino que ganhou espaço nas aventuras foi o Jalapão, no Tocantins.

Mauro e Vanessa fizeram tanto a rota tradicional quanto uma versão mais extrema da expedição, em trechos com pouco acesso, ausência de sinal de celular e comunidades bastante isoladas.

A região é conhecida pelos fervedouros, dunas, cachoeiras, rios e formações naturais. Entre os pontos mais procurados estão as Dunas do Jalapão, a Cachoeira do Formiga, a Pedra Furada e diferentes fervedouros.

O Parque Estadual do Jalapão fica a cerca de 300 quilômetros de Palmas e boa parte do deslocamento é feita por estradas de terra e areia. A própria Folha destaca que o acesso exige veículo 4x4 e experiência ou acompanhamento adequado.

Para quem parte de Salvador, o caminho até a região de Mateiros fica na casa dos 1,7 mil quilômetros por estrada, dependendo do roteiro escolhido.

Mas o que mais marcou Vanessa no Jalapão não foram apenas as paisagens.

Durante uma das expedições, o grupo passou por comunidades onde, segundo o relato do casal, veículos de fora praticamente não circulavam. A viagem também envolveu ações de solidariedade, como a entrega de cestas básicas e a participação em iniciativas que levam iluminação solar para casas isoladas.

Registros das viagens de Mauro e Vanessa
Registros das viagens de Mauro e Vanessa - Foto: Arquivo Pessoal | Leitor de A Tarde

Cinco destinos para quem quer começar

Apesar das viagens extremas, Mauro não recomenda que um iniciante comece tentando reproduzir uma expedição de 13 mil quilômetros.

Para ele, o ideal é aumentar a dificuldade aos poucos.

Entre os destinos indicados pelo casal estão:

  • Transpantaneira, no Mato Grosso: a estrada começa em Poconé e possui pouco mais de 140 quilômetros de terra, com dezenas de pontes. O trajeto é conhecido pela possibilidade de observar animais como jacarés, tuiuiús, araras, tucanos e onças.
  • Jalapão, no Tocantins: mistura areia, terra, água, dunas e diferentes tipos de terreno. É uma opção para quem quer começar a entender como o veículo reage fora do asfalto.
  • Atacama, no Chile: apesar da distância, o casal considera o destino relativamente acessível para quem está começando porque existem trechos asfaltados e caminhos de rípio.
  • Bonito, no Mato Grosso do Sul: tem uma estrutura turística mais consolidada e reúne atrações como a Gruta do Lago Azul e diferentes rios e áreas de natureza. De Salvador, são aproximadamente 2,6 mil quilômetros por estrada.
  • Terra Ronca, em Goiás: é uma alternativa para quem procura uma experiência diferente. O parque reúne centenas de cavernas e grutas, incluindo Terra Ronca I e II e a Caverna Angélica. A recomendação é contar com guias especializados, especialmente porque existem trechos de maior dificuldade.
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Qual carro é ideal para uma expedição?

A resposta de Mauro é menos óbvia do que parece: não existe um único carro perfeito.

O casal já viajou com modelos diferentes e atualmente utiliza uma Nissan Frontier. Entre os amigos, há Toyota SW4 e Suzuki Jimny.

O próprio Jimny, inclusive, ganhou destaque na experiência deles. Pequeno e leve, o modelo surpreendeu o grupo em terrenos como neve e areia.

A avaliação faz sentido também fora da experiência do casal. Testes especializados da Quatro Rodas já colocaram modelos como Nissan Frontier, Toyota Hilux, Ford Ranger, Chevrolet S10 e Mitsubishi L200 em comparativos de uso misto, incluindo capacidade fora de estrada.

O Suzuki Jimny também tem uma longa tradição no segmento off-road e é conhecido pelo tamanho compacto e pela capacidade de enfrentar trilhas.

Mas, para Mauro, o mais importante é não transformar a preparação do carro em uma desculpa para nunca sair.

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A ideia é começar com o que se tem e, conforme as viagens aumentam, entender quais equipamentos realmente fazem sentido para o próprio perfil.

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O que não pode faltar no carro

Depois de tantos quilômetros, Mauro e Vanessa já têm um checklist praticamente obrigatório.

Entre os itens citados pelo casal estão:

  • caixa de ferramentas;
  • cintas de reboque;
  • rádio comunicador;
  • saco de dormir adequado à temperatura do destino;
  • mapa ou GPS;
  • guincho;
  • snorkel;
  • pneu adequado ao terreno;
  • água e comida;
  • repelente;
  • protetor solar;
  • capa de chuva;
  • compressor de ar;
  • prancha de desatolamento;
  • pá;
  • carregadores;
  • geladeira automotiva.

Para Mauro, porém, não é necessário colocar todos os equipamentos de uma vez.

A própria experiência ensinou o que realmente fazia falta. Depois de cada viagem, um novo item era incorporado ao carro.

“Você nunca vai ter o carro 100% perfeito. Você sempre vai querer alguma coisa”, explica.

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O pneu pode mudar completamente a viagem

Um dos pontos mais curiosos da preparação está justamente em algo que parece simples: a calibragem dos pneus.

Mauro explica que a pressão usada no asfalto não é necessariamente adequada para terrenos como areia ou neve.

Segundo ele, pneus que rodam com cerca de 35 PSI no asfalto podem ser reduzidos para aproximadamente 12 a 14 PSI em determinados trechos de areia. Na neve, o casal chegou a utilizar 9 PSI.

A lógica é aumentar a área de contato do pneu com o terreno e melhorar a tração.

Mas existe um detalhe importante: depois de sair do trecho off-road, é necessário voltar a calibrar o pneu. Por isso, o compressor de ar também virou equipamento indispensável para o casal.

Registros das viagens de Mauro e Vanessa
Registros das viagens de Mauro e Vanessa - Foto: Arquivo Pessoal | Leitor de A Tarde

Quanto dirigir por dia?

Para quem está acostumado a viajar de avião, pode parecer exagero imaginar centenas de quilômetros diariamente.

Mauro considera que uma média confortável para grandes deslocamentos fica entre 600 e 700 quilômetros por dia.

O segredo, segundo ele, é sair cedo e evitar dirigir à noite sempre que possível.

A rotina do casal costuma começar por volta das 6h. Em um dia confortável, são algumas horas pela manhã, uma pausa e mais algumas horas à tarde, chegando ao destino ainda com luz do dia. Mas há exceções.

Na viagem para Ushuaia, o grupo chegou a fazer trechos de 1.000 e até 1.300 quilômetros em um único dia para conseguir cumprir o roteiro dentro do tempo disponível.

“Você tem que ter um objetivo”, explica Mauro ao falar sobre expedições muito longas.

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