SECA DE GOLS
Bahia precisa olhar pra Manchester e jogar em função do camisa 9 para voltar a vencer
Time torto contra o Vasco escancara dependência de Everton Ribeiro, problemas com pontas e atacantes isolados


O sinal de alerta no Bahia deixou de ser um mero chiado e passou a soar em tom ensurdecedor. Já são quatro jogos sem vencer na temporada — sendo dois deles dentro da Casa de Apostas Arena Fonte Nova —, e o desempenho contra o Vasco escancarou uma fragilidade tática que vai além da falta de pontuação: o Esquadrão se tornou um time prevísivel, torto e incapaz de fazer a bola chegar com qualidade ao seu centroavante.
Sem Everton Ribeiro em campo para reger, ditar o ritmo e clarear os caminhos, a construção ofensiva do Tricolor simplesmente ruiu. O que se viu na Fonte Nova foi uma equipe capenga e com ligação direta dos zagueiros para os atacantes. Pela direita, Ademir atuava isolado e espetado na ponta; pela esquerda, um vazio absoluto; no meio, a tentativa frustrada - e lenta - de usar Willian José voltando demasiadamente para exercer o papel de um meia de criação que ele não é.
O resultado dessa engenharia torta foi trágico para a referência do ataque. Alejo Véliz foi um mero espectador em campo.
O jovem argentino, contratado com status de solução para a grande área, é um matador nato. Forte, brigador e com excelente leitura de espaço, ele precisa de suprimento. Se a bola não chega limpa nos lados ou pelo centro, o centroavante vira figura figurativa. Não por acaso, Willian José amarga uma seca de 10 jogos sem balançar as redes, e Alejo caminha pelo mesmo calvário se a engrenagem não for corrigida imediatamente. Ainda não marcou com a camisa do Bahia, e soma três gols anulados.
O espelho que vem de Manchester
A ironia dessa encruzilhada reside no fato de o Bahia pertencer ao Grupo City. Se há uma referência mundial sobre como reconfigurar uma equipe com alto volume de jogo para servir a um goleador, esse modelo está na matriz, mais precisamente em Manchester, na Inglaterra.
Por anos, o Manchester City de Pep Guardiola consagrou-se pelo futebol de troca de passes incessante, sem uma referência fixa. No entanto, quando Erling Haaland desembarcou na Premier League, Guardiola entendeu rapidamente que a filosofia precisava se adaptar ao talento do seu "9". O City moldou sua estrutura, encurtou os caminhos e passou a ter como objetivo final da sua posse de bola a servidão ao seu artilheiro. Resultado: títulos, recordes e um futebol devastador.
Rogério Ceni precisa olhar com urgência para a cartilha de Guardiola. O futebol de posse do Bahia não pode ser um fim em si mesmo ou um mero toque lateral inofensivo; a posse de bola precisa ter um destino final claro: a grande área adversária.
Na última temporada 2025/2026, Erling Haaland marcou um total de 55 gols em 61 jogos somando 52 partidas pelo Manchester City (38 gols) e seus compromissos pela Noruega (17 gols). O atacante norueguês tem 162 gols marcados em 198 jogos oficiais pelo Manchester City.
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Construção com propósito
Ou a comissão técnica treina variações para que o Bahia jogue em função do seu camisa 9, alimentando Alejo Véliz com cruzamentos na medida e infiltrações, ou o argentino vai continuar "morrendo de fome" no ataque.
A crítica aqui é estritamente construtiva, mas necessária. O Bahia possui elenco, investimento e peças de qualidade para brigar no topo da tabela. No entanto, sem a presença de pontas que alarguem o campo em ambos os lados - Erick Pulga estava suspenso, Sanabria não convenceu pela esquerda e Ruan Pablo está com a Seleção Brasileira Sub-20 - e sem a aproximação de meias que sirvam o pivô, o futebol do Esquadrão continuará burocrático e inofensivo. Foram apenas dois gols nos últimos quatro jogos, sendo que não balançou as redes nos últimos dois.
O números dos atacantes do Bahia são pífios. Centroavantes que não tem faro de gol e pontas que têm alergia em estufar as redes.
- William José: 8 gols
- Everaldo: 6 gols
- Ademir: 3 gols
- Sanabria: 3 gols
- Kike Oliveira: 2 gols
- Erick Pulga: 2 gols
O tempo de testes acabou. Para voltar a vencer e retomar a confiança do torcedor, o Bahia precisa deixar de ser um time previsível e aprender a servir quem foi contratado para decidir. A bola precisa chegar. Alejo precisa ser munido para mostrar seu talento. O sonho da Libertadores segue vivo, mas é preciso reagir imediatamente.
As notas negativas ficam por conta da lesão de Luciano Juba, da insegura atuação de Kauê Furquin e do instável goleiro Ronaldo, que quase entregou o jogo em lances bobos.


