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ENTREVISTA EXCLUSIVA

Raio X do cinema na Bahia: Margareth Menezes avalia falta de salas e desigualdade no acesso

Ministra revelou as ações do Ministério da Cultura para democratizar acesso a sétima arte

Edvaldo Sales
Por
| Atualizada em
Margareth Menezes revelou as ações do Ministério da Cultura para democratizar o acesso sétima arte
Margareth Menezes revelou as ações do Ministério da Cultura para democratizar o acesso sétima arte - Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE

Ainda que o cinema brasileiro esteja alçando voos cada vez mais altos, o acesso à sétima arte no país ainda é bastante desigual em muitos estados, incluindo a Bahia. Esse foi um dos tópicos abordados pelo portal A TARDE com a ministra da Cultura, Margareth Menezes, em uma entrevista exclusiva.

Uma pesquisa realizada pela reportagem em 2024 revelou que a Bahia, que conta com 417 municípios, tinha, naquele ano, 40 complexos cinematográficos e 141 salas de cinema em funcionamento, em apenas 23 municípios do estado, ou seja aproximadamente 5,5%.

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Esse número reduziu. Em abril deste ano, a rede CineSercla, que tinha 4 salas, encerrou as atividades de sua unidade no Shopping Cajazeiras, na capital baiana. Em 2025, o Grupo Cine, principal rede de cinemas do interior do estado, anunciou o encerramento das suas atividades no Vale Shopping, em Amargosa. Com isso, mais três salas foram perdidas.

Margareth pontuou que a questão não pode ser explicada apenas pela falta de demanda. Dados mais recentes da Agência Nacional de Cinema (Ancine) mostram que o cenário é mais complexo e que existe um desafio importante de interiorização e de sustentabilidade das salas de cinema.

O Ministério da Cultura (MinC) afirmou que, na Bahia, o número de complexos comerciais se manteve de 2023 a 2026: 39. Já o número de salas caiu de 141 para 136 salas em agosto de 2026. Segundo a pasta, houve uma movimentação dentro do estado: algumas cidades ampliaram sua oferta, enquanto outras perderam salas.

A gestora apresentou dados positivos no cenário nacional. Ela disse que quando assumiu a Cultura em janeiro de 2023 havia 2.500 salas de cinema abertas no Brasil. Atualmente, tem 3.500 — 1000 salas a mais.

“O dado é que vem crescendo. Nós temos uma política de aberturas em cidades que não têm salas, porque a grande realidade é que a maioria estavam no sudeste. Muitas cidades do Brasil não tinham salas de cinema”, ressaltou.

Cidades baianas ganharam mais salas

Na Bahia, apontou Margareth Menezes, 4 cidades ganharam mais salas:

  • Vitória da Conquista passou de 8 para 9 salas;
  • Teixeira de Freitas, de 5 para 6;
  • Santo Antônio de Jesus, de 2 para 3;
  • Paulo Afonso, de 1 para 2.

Brumado passou a ter uma sala comercial.

Atualmente, as cidades baianas que têm salas cinema são:

Salvador (68);
Feira de Santana (9);
Vitória da Conquista (9);
Lauro de Freitas (7);
Camaçari (5);
Teixeira de Freitas (6);
Juazeiro (4);
Itabuna (4);
Jequié (4);
Serrinha (2);
Irecê (2);
Santo Antônio de Jesus (3);
Alagoinhas (2);
Ilhéus (2);
Eunápolis (2);
Paulo Afonso (2);
Luís Eduardo Magalhães (2);
Barreiras (2);
Guanambi (2);
Ibicaraí (1);
Itamaraju (1);
Porto Seguro (1);
Brumado (1).

Não estamos diante de uma realidade uniforme. Existe uma dimensão econômica. Manter uma sala de cinema em funcionamento envolve custos importantes de operação, programação, manutenção e infraestrutura, e esses desafios são maiores em mercados menores. Margareth Menezes - ministra da Cultura

A ministra destacou ainda que público também se forma e que a existência de uma programação diversificada, preços acessíveis, equipamentos de qualidade e, principalmente, a possibilidade de as pessoas se reconhecerem no que está sendo exibido ajudam a criar e manter esse público.

“A política para o audiovisual não pode se limitar à produção de filmes. Precisamos olhar para toda a cadeia: formação, produção, distribuição, exibição, preservação e formação de público. E precisamos fazer isso de maneira nacionalizada”, explicou.

Margareth Menezes revelou as ações do Ministério da Cultura para democratizar o acesso sétima arte
Margareth Menezes revelou as ações do Ministério da Cultura para democratizar o acesso sétima arte - Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom | Agência Brasil

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“Não há diversidade”

Na avaliação do jornalista baiano e crítico de cinema filiado à Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), Adolfo Gomes, o número de salas é “muito pouco”.

Além disso, ele pontuou que a programação é bastante concentrada em blockbusters. “Não há diversidade. Cabe ao poder público, através dos Centros Culturais e da criação de novos equipamentos, melhorar esse cenário”, disse em entrevista ao A TARDE.

Para mudar o cenário, Adolfo ressaltou que é necessário ter estímulo, projetos de formação de público, mobilização e criação de um circuito de difusão.

É questão de dar continuidade e ter mais apoio e investimento para obter resultados mais rápidos e visíveis. Adolfo Gomes - jornalista e crítico de cinema

Investimentos

Dentro desse cenário de nacionalização, Margareth assegurou que a Bahia está avançando e citou investimentos. “Os Arranjos Regionais do Audiovisual destinam R$ 24 milhões para fortalecer o setor no estado, com recursos federais e contrapartidas locais”, frisou.

O ministério acrescentou que são investimentos que abrangem diferentes etapas da cadeia, incluindo formação, produção, difusão e preservação, além de linguagens como animação, conteúdo infantil e jogos eletrônicos. A ideia, falou o MinC, é fortalecer o ecossistema audiovisual baiano e “criar mais oportunidades para os profissionais e empresas que atuam no estado”.

A produção e o financiamento de novas obras contam com outros instrumentos da política audiovisual, especialmente o Fundo Setorial do Audiovisual. Entre 2023 e 2025, conforme a pasta, foram aportados mais de R$ 5,7 bilhões no setor audiovisual brasileiro, considerando recursos do FSA e das leis de incentivo.

Foco nas cidades de médio porte

Em relação ao Brasil, o MinC quer focar principalmente nas cidades de médio porte. “Como cinemas em shopping é mais caro, nós estamos buscando fazer cinemas públicos para a gente criar mais a demanda, porque às vezes a pessoa nunca foi ao cinema porque na sua cidade não tem. Isso gera uma leitura que não parece boa”, observou Margareth.

Nós queremos abrir mais salas, incentivar, fazer campanha e uma política de formação de plateia, para que as pessoas frequentem o cinema. Infelizmente, às vezes acontece o fechamento de uma sala ou outra, mas os dados que nós temos é de uma série histórica de abertura de salas de cinema no Brasil. Margareth Menezes - ministra da Cultura

O papel do Tela Brasil na empreitada

Com 550 obras disponíveis, o Tela Brasil, streaming gratuito lançado em maio de 2026, já registrou quase 6 milhões de visualizações. Somente no mês de julho, foram mais 735 mil.

Dentro da grande empreitada de aumentar o alcance do cinema nacional, o Tela Brasil tem como papel central funcionar como uma plataforma pública de difusão, circulação e acesso ao audiovisual brasileiro.

A prioridade do MinC neste momento é consolidar e ampliar o projeto, expandindo seu público, catálogo, acessibilidade e alcance nas diferentes telas, já que o foco é democratizar o acesso, à medida que o valor dos streamings tem aumentado gradativamente e pesa no bolso do brasileiro.

Nós temos uma missão muito grande de acolher cada vez mais a produção brasileira. O nosso foco maior é de promover a melhoria da política de industrialização do audiovisual. Margareth Menezes - ministra da Cultura
‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’,dirigido por Glauber Rocha e lançado em 1964, está disponível no Tela Brasil
‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’,dirigido por Glauber Rocha e lançado em 1964, está disponível no Tela Brasil - Foto: Divulgação

Para a ministra, colocar o cinema brasileiro nessa perspectiva de indústria é cada vez mais a missão, abrindo mercados e investimento na coprodução internacional.

Nós teremos, nos anos de 2026 e 2027 a chegada de várias obras de coprodução internacional. São mais de 100 obras a partir das nossas chamadas.

Além disso, existe uma ação de formação de plateia, “porque a retomada das aulas de arte e cultura nas escolas também tem essa função, para que a juventude também possa despertar para a produção nacional, tanto do audiovisual, mas também da dança, do teatro e da música”.

O ambiente não é tão fácil, porque nós temos as plataformas de streaming, mas sabemos que o povo brasileiro gosta da sua cultura e a gente precisa criar políticas que façam com que o acesso seja cada vez maior. Margareth Menezes - ministra da Cultura

Cota de telas sob atenção

Em maio deste ano, o longa infantil ‘Zuzubalândia - O Filme’, lançado originalmente há dois anos, foi usado de atalho pela rede Cinemark para cumprir mais rapidamente a Cota de Tela, mecanismo voltado para o fomento do audiovisual brasileiro que obriga exibidoras a reservar parte da programação a produções nacionais.

Só no estado de São Paulo, a rede programou 114 sessões do título em uma dia, quase metade delas às 11h, o restante entre o meio-dia e 14h45.

‘Zuzubalândia - O Filme’ foi lançado originalmente há dois anos
‘Zuzubalândia - O Filme’ foi lançado originalmente há dois anos - Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE

Margareth assegurou que a Ancine faz o monitoramento do cumprimento da Cota por meio dos dados de bilheteria e da programação das salas. “A partir da constatação de algum descumprimento dentro dos regramentos que a Agência estabelece há sim responsabilidades. Esse caso está sendo acompanhado como outros também”, garantiu.

Nós estamos atentos sim, porque é preciso que também o agente cultural cumpra a sua parte dentro daquilo que é acordado. Nossa função é promover o cinema brasileiro e tomar conta para que as ações que estão dentro da regulação sejam cumpridas. Margareth Menezes - ministra da Cultura

Ainda de acordo com o MinC, a preocupação não é apenas garantir que o filme brasileiro entre na sala, mas garantir que ele tenha uma chance real de ser visto.

Vale citar que, antes da retomada da Cota de Tela, em 2023, os filmes brasileiros representavam 7,5% das sessões e apenas 3,3% do público. Em 2024 e 2025, a participação nas sessões subiu para 15,7%, mas a participação no público ficou em torno de 10%. E, em 2026, até o momento, essa participação no público está em 6,5%.

Nova regra

Após o caso envolvendo a Cinemark, foi feito um aperfeiçoamento da regulamentação. A nova regra cria incentivos para que as salas exibam filmes brasileiros em horários de maior público, especialmente a partir das 17 horas, e também para que esses filmes permaneçam mais tempo em cartaz.

Obras brasileiras premiadas também recebem um incentivo adicional quando são exibidas nesses horários.

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