LEVI VASCONCELOS
É hora do voto. E vá sabendo que se arrepender faz parte
Maria Del Carmen, Zé Rocha e outros políticos se despedem das urnas


Kardelícia Mourão, colega de faculdade e de ofício que virou presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia, nos deixou em 30 de março de 2025. Era chamada de Kardé, ou Kardezinha, mas, em muitas das vezes em que abriu a boca, deixava fluir o lado delícia:
– Sou espírita e comunista. Gosto de dizer isso porque o que falo da boca pra fora vale do coração pra dentro!
Como pode essa conjugação, se comunista é ateu?
– Não vejo contradição. O espiritismo diz que ninguém é dono de nada, todos são donos de tudo, mas para tratar com responsabilidade. É o que um bom comunista deveria fazer.
Ela, que a vida inteira foi ligada ao PCdoB, dizia que partidos são como a própria política, ferramenta. Depende de quem usa. E disso resulta que a grande maioria, sempre e mais no eleitoral, só fala da boca pra fora.
Saindo de cena – Na ponga das lições de Kardé, vemos a história se repetir agora. Ela também lembrava que o jogo da vida é como qualquer jogo, vence quem acerta mais.
No jogo político, mais acerto é ganhar votos. Para o povo, o pagamento do prometido. Em 2026, alguns personagens estão fora das urnas depois de passar as últimas décadas com elas.
É o caso da deputada Maria Del Carmen. Em vias de completar 78 anos, espanhola de La Caniza, com problemas de saúde, ela está fora das urnas de hoje, após cinco mandatos de deputada estadual e um de vereadora em Salvador e diz: “Simples. É hora de parar”.
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Também sai de cena Nelson Leal, deputado estadual com seis mandatos, ex-presidente da Alba, que só disse achar muito melhor assumir a coordenação da campanha de ACM Neto.
Outro que pendura as chuteiras, ou quase, é o deputado federal Zé Rocha (UB), após quatro mandatos de deputado estadual e sete de federal. Ele apoia o filho, o hoje estadual Manoel Rocha (UB), ex-prefeito de Coribe, onde os dois nasceram.
Zé Rocha é médico, mas desde o primeiro mandato largou a medicina para se dedicar à política. Ele está com 78 anos e também diz que é hora de desacelerar:
– Politicar eu vou continuar politicando enquanto eu viver, mas mais leve.
João Leão, pernambucano de Recife, mas criado na Barra de São Francisco, com 80 anos, deputado federal seis vezes, duas vice-governador (com Rui Costa), também resolveu parar, apoiando este ano a candidatura a federal do filho, Cacá Leão (PP). Ele se diz muito satisfeito:
– Hoje [ontem], eu acordei muito bem, feliz, sem maiores compromissos. Só não está melhor porque ainda tenho Cacá para dar conta.
Nesse cenário, convocamos de novo a nossa Kardé. E esse time aí sempre falou da boca pra fora e do coração pra dentro?
Ela não disse, mas diria. “As duas coisas, vezes uma, vezes outra”. Como dizia Teófilo Sena, filosófo popular de Valença, falecido em 2009: ‘Todo político promete como sem falta e falta como sem dúvida”. Nas urnas de hoje, você vai fazer uma opção, mas, seja ela qual for, já vai sabendo.
POLÍTICA COM VATAPÁ
Voto secreto
Antigamente, nos tempos da Velha República, que durou da Proclamação até 1930, quando Getúlio Vargas tomou o poder, quem dava as cartas em eleições no sertão eram os coronéis, que faziam dos seus territórios literalmente currais eleitorais.
Contava Sebastião Nery que uma figura marcante desse tempo era Francisco Heráclio do Rego, o Coronel Chico Heráclio, que viveu até 1974, e por isso carregava a fama de ‘o último dos coronéis’.
Lá um dia, eleição, a história se repetia. O povo chegava para votar, recebia a chapinha com o voto já dado, ia na urna e depositava, depois estava liberado para se esbaldar numa mesa farta, cheia de bebidas.
Numa dessas, o eleitor acabou de botar o voto na urna, entrou numa roda de conversa, virou-se para o Coronel, perguntou:
– Coronel, me satisfaça uma curiosidade: afinal de contas, em quem foi que eu votei?
E o Coronel:
– Cale a boca, meu filho! Você não sabe que o voto é secreto!?


