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CLT x PJ: quanto você precisa faturar para a troca realmente valer a pena?
Comparar apenas valor mensal pode fazer um aumento parecer maior do que realmente é.


Você recebe R$ 5 mil trabalhando de carteira assinada (CLT) e aparece uma proposta para faturar R$ 7 mil como pessoa jurídica (PJ). Aceitaria? Em um primeiro momento, a conta parece fácil, são R$ 2 mil a mais todos os meses (um aumento de 40% no faturamento). Mas essa comparação esconde uma parte importante da conta.
Na CLT, o salário mensal vem acompanhado de direitos como décimo terceiro, férias remuneradas com adicional de um terço e FGTS. Dependendo da empresa, ainda podem existir plano de saúde, vale-alimentação, bônus e outros benefícios mensais.
Como PJ, esses valores que fazem parte da conta precisam ser construídos pelo próprio trabalhador e, ainda, entra o pagamento de impostos e de um serviço de contabilidade.
É por isso que comparar apenas salário CLT x faturamento PJ pode levar a uma conclusão equivocada. Para te ajudar a saber como analisar melhor uma proposta, conversei com a contadora Laíssa Gusmão, sócia da EFIZ Consultoria, sobre o que realmente precisa entrar nessa conta.
Trabalhar como PJ virou uma realidade para milhões de brasileiros
A dúvida se vale a pena trocar um vínculo CLT por um como pessoa jurídica não aparece por acaso nesta coluna. O trabalho por conta próprio vem ganhando cada vez mais espaço no mercado brasileiro.
Em 2025, o Brasil tinha 25,5 milhões de trabalhadores por conta própria, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE. O dado é o maior valor registrado desde 2012.
Também aumentou a parcela desses profissionais que trabalham formalizados com um CNPJ. Dados do instituto mostram que esse percentual passou de 15% dos trabalhadores por conta própria em 2012 para 25,7% em 2024. Naquele ano, aproximadamente 6,6 milhões de trabalhadores por conta própria tinham registro empresarial.
Vale ressaltar que esses números não significam que todos esses trabalhadores trocaram um emprego CLT por um contrato PJ. Mas ajudam a dimensionar como trabalhar por conta própria e por meio de uma empresa passou a fazer parte da realidade de uma parcela relevante do mercado de trabalho brasileiro.
E, com isso, uma pergunta aparece com cada vez mais frequência: quando uma proposta PJ representa realmente uma melhora financeira em relação à CLT? A contadora Laíssa Gusmão, entrevistada pelo portal A TARDE, vai nos ajudar a descobrir essa resposta.
A primeira conta: quanto vale o emprego que você já tem?
De acordo com a contadora, o maior erro na hora de decidir uma proposta é olhar apenas para o valor que vai cair na conta. "A comparação correta é o pacote total da CLT x quanto sobra efetivamente no PJ depois dos custos e retiradas das reservas", explica Laíssa.
A especialista indica transformar os direitos anuais em percentuais mensais. Considerando um salário de R$ 5.000:
- 13º: R$ 5.000 ÷ 12 = R$ 416,67/mês
- Férias: R$ 5.000 ÷ 12 = R$ 416,67/mês
- 1/3 de férias: R$ 1.666,67 ÷ 12 = R$ 138,89/mês
- FGTS: aproximadamente R$ 400/mês
Somando, temos cerca de R$ 1.372/mês em direitos que não aparecem simplesmente como salário mensal. Como se pode constatar, antes mesmo de falar em imposto do PJ, já existe uma diferença importante entre os dois modelos de atuação trabalhista.
A conta ainda pode aumentar quando entram benefícios. Um plano de saúde pago ou subsidiado pela empresa, vale-alimentação, auxílio-transporte e bônus têm valor econômico, mesmo que não apareçam no salário bruto.
Para abrir mão de tudo isso por uma contratação PJ, é preciso descobrir quanto custaria reproduzir, por conta própria, aquilo que você considerar necessário para sua realidade.
A segunda conta: quanto dos R$ 7 mil realmente é seu?
A diferença mais importante entre o salário e o faturamento é essa aqui. Os R$ 7 mil previstos em um contrato PJ não devem ser tratados automaticamente como valor disponível para despesas pessoais.
Dependendo da sua realidade, a contadora explica que ainda podem sair do valor:
- Impostos e taxas da PJ;
- Honorários contábeis;
- Contribuição ao INSS como PJ;
- Custos operacionais da empresa;
- Reserva para férias;
- Reserva para 13º;
- Reserva de emergência e para aposentadoria.
E não existe um valor único que possa ser aplicado para todo profissional. A atividade exercida, o CNAE escolhido, o município, o regime tributário e a forma como a empresa está organizada podem alterar a conta.
É possível, portanto, que duas pessoas com faturamento mensal idêntico de R$ 7 mil tenham valores líquidos diferentes.
A terceira conta: quanto custa tirar férias?
Imagine que o novo contrato não remunere períodos sem prestação de serviço. Dessa forma, se resolver passar 30 dias de férias, poderá também passar 30 dias sem faturar.
"Se a pessoa quiser reproduzir aproximadamente o período de férias da CLT, pode reservar 1/12 do seu faturamento mensal para cada mês de férias. Por exemplo: se você fatura R$ 6.000, basta guardar R$ 500 por mês", ensina Laíssa.
Caso deseje reproduzir o adicional de 1/3 de férias, a contadora indica uma reserva de aproximadamente R$ 666,67 por mês.
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A quarta conta: você pretende gastar todo o faturamento?
Ao optar por atuar no modelo PJ, o profissional precisa decidir se quer reconstruir as proteções trabalhistas comuns, como 13° salário, com o seu próprio dinheiro.
Para criar uma espécie de “13º particular” de R$ 6 mil, por exemplo, seria possível separar R$ 500 por mês durante um ano. Uma lógica parecida com a que falamos anteriormente nas férias.
Na prática, quem recebe R$ 7 mil como PJ não deveria necessariamente organizar a vida financeira como alguém que tem R$ 7 mil livres por mês.
Contribuição previdenciária
A contadora alerta que a contribuição previdenciária é outro ponto que merece atenção ao avaliar uma proposta de mudança de modelo.
"Na CLT, a contribuição previdenciária é descontada do trabalhador. Como PJ, a contribuição também é obrigatória através do pró-labore. O percentual na PJ é de 11% do salário mínimo, enquanto na PF o percentual inicial começa é a partir de 7,5% do salário mínimo. (R$ 1.621,00 em 2026)", detalha Laíssa.
A especialista ainda aconselha que, além do INSS, você deve considerar ter uma estratégia própria de investimento para aposentadoria.
Afinal, R$ 7 mil PJ são melhores que R$ 5 mil CLT?
Depende. No cenário discutido durante a entrevista ao A TARDE, a contadora Laíssa considera que, para quem recebe R$ 5 mil pela CLT, uma proposta entre R$ 7 mil e R$ 8 mil como PJ já merece uma simulação mais detalhada para saber se a troca de modelo compensa.
A especialista ainda recomenda fazer a seguinte avaliação:
Os direitos que deixam de existir + os custos do PJ + o risco adicional + a possibilidade de um período sem faturamento.
Se você estiver diante de uma proposta desse tipo, troque a pergunta. Em vez de: “Meu salário é R$ 5 mil e vou receber R$ 7 mil. Estou ganhando R$ 2 mil a mais?”
Pergunte:
“Depois de substituir o que estou deixando para trás, pagar os custos do PJ e guardar dinheiro para os períodos em que não vou faturar, quanto desses R$ 7 mil realmente ficará comigo?”
A resposta dessa segunda pergunta que deve nortear a sua decisão.
Cenários de referência para comparar CLT X PJ
Como referência inicial para uma comparação de condição financeira equivalente, eu trabalharia aproximadamente com:
| Salário CLT | Faturamento PJ |
| R$ 3.000 | R$ 6.500 a R$ 7.500 |
| R$ 4.000 a R$ 4.500 | R$ 8.000 |
| R$ 5.000 | R$ 10.000 a R$ 12.000 |
"Esses valores são faixas de referência, não uma regra. A simulação definitiva precisa considerar o imposto efetivo da atividade e os benefícios que a pessoa perderá ao sair da CLT", esclarece Laíssa.
A contadora ainda acrescenta que um profissional com um salário CLT de R$ 6 mil e benefícios precisará de uma proposta maior do que alguém que recebe os mesmos R$ 6 mil sem benefícios.
Diante de tudo isso, fica o aprendizado de que uma proposta de troca de modelo pode trazer mais dinheiro para a conta bancária mensalmente e, mesmo assim, não representar um aumento real de remuneração.


