PLANEJAMENTO FINANCEIRO
Quanto custa realmente morar sozinho?
O ideal é fazer uma simulação de mudança para entender se as despesas cabem no orçamento.


Morar sozinho tem se tornado uma realidade cada vez mais comum no Brasil. Em 2025, 15,6 milhões de brasileiros viviam sozinhos, e os domicílios formados por apenas uma pessoa representavam 19,7% do total do país, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE.
Para quem está planejando sair da casa dos pais, a decisão costuma esbarrar em uma dúvida prática: como saber se o orçamento está, de fato, pronto para essa mudança? O A TARDE conversou com a contadora Laíssa Gusmão para entender o que realmente deve entrar no planejamento financeiro de quem pretende morar sozinho.
Ter renda para pagar as contas mensais é o suficiente?
Normalmente, as pessoas tomam a decisão de mudança considerando apenas se conseguem pagar aluguel, energia, água, internet e supermercado.
O problema é que nem sempre a vida acontece como planejamos. Um eletrodoméstico pode quebrar, pode surgir um problema hidráulico, uma despesa médica ou até um desfalque na renda do mês.
Segundo Laíssa Gusmão, o planejamento financeiro para morar sozinho precisa considerar despesas fixas, despesas que não aparecem todos os meses e possíveis mudanças de renda.
Por isso, a especialista sugere ir além da pergunta "meu salário paga minhas contas?" e considerar também:
- Se eu perder minha renda amanhã, por quanto tempo consigo manter minha casa?
- Se surgir uma despesa inesperada, consigo pagar sem entrar no cartão de crédito ou no cheque especial?
As respostas ajudam a mostrar se o orçamento está apenas fechando no papel ou se existe margem financeira para manter a casa mesmo diante de imprevistos.
Como fazer as contas para morar sozinho?
A contadora Laíssa Gusmão alerta que o planejamento ideal para morar só deve considerar três grupos de gastos:
- Quanto custa entrar no imóvel?
- Quanto será necessário por mês para manter a casa?
- Quanto precisa permanecer guardado para emergências.
Entenda melhor cada um deles.
1- Quanto custa entrar no imóvel?
"Antes mesmo de começar a pagar as contas mensais, pode existir um custo significativo para entrar no imóvel", explica Laíssa.
Nesse primeiro momento, ela orienta considerar despesas como caução ou outra garantia solicitada pelo proprietário, primeiro aluguel, taxa de condomínio, IPTU e o valor da mudança.
2- O que é preciso comprar para a casa?
Também é preciso colocar no orçamento a estrutura básica do imóvel, com itens como cama e colchão, geladeira, fogão, máquina de lavar, utensílios de cozinha e roupas de cama e banho.
Isso não significa, porém, que a nova casa precise ficar completamente pronta no primeiro dia.
A orientação da contadora é justamente evitar transformar a montagem do imóvel em uma corrida para comprar tudo de uma vez. “É melhor entrar em uma casa mais simples e manter uma reserva financeira do que montar a casa inteira de vez e ficar sem dinheiro para emergências”.
3- Quanto custa manter a casa por mês?
Depois vêm os gastos necessários para manter a casa funcionando todos os meses. Além de aluguel, a conta pode incluir taxa de condomínio, água, energia, gás, internet e supermercado.
Também é preciso considerar despesas com transporte, produtos de higiene e limpeza, saúde, lazer, manutenção e pequenos reparos.
Alguns desses gastos podem parecer pequenos quando analisados separadamente, mas precisam entrar no orçamento para que a estimativa mensal se aproxime do que será gasto de fato depois da mudança.
Exemplo de como fazer as contas
Para mostrar como essa conta funciona na prática, Laíssa simulou o orçamento de uma pessoa com renda líquida de R$ 5 mil. No exemplo, os gastos mensais chegariam a R$ 4,1 mil:
- R$ 1,7 mil com aluguel e condomínio,
- R$ 350 com água, energia e gás,
- R$ 150 com internet e celular,
- R$ 700 com mercado,
- R$ 400 com transporte,
- R$ 200 com higiene e limpeza,
- R$ 300 com lazer e
- R$ 300 com outros gastos.
Nesse cenário, restariam R$ 900 no mês.
A contadora ainda faz um alerta sobre o destino desse dinheiro que sobraria. "Caso ele seja constantemente usado para despesas que ficaram fora da previsão, a pessoa viveria no limite e sem reserva financeira para emergências", pontua.
Afinal, quanto dinheiro ter antes de morar sozinho?
Não existe um valor único, porque ele depende principalmente de quanto custa manter a vida de cada pessoa. A referência sugerida pela contadora é construir, além do dinheiro necessário para a mudança, uma reserva equivalente a pelo menos três a seis meses das despesas essenciais.
Imagine, por exemplo, que aluguel, alimentação, contas básicas, transporte e demais gastos indispensáveis somem R$ 3.500 por mês.
- Reserva de três meses corresponderia a: R$ 3.500 x 3 = R$ 10.500
- Reserva de seis meses: R$ 3.500 x 6 = R$ 21.000
De acordo com Laíssa Gusmão, a faixa de reserva deve ser analisada conforme a situação profissional. "Quem possui renda variável, trabalha como autônomo ou enfrenta maior instabilidade pode precisar ser mais conservador e se aproximar dos seis meses ou até ultrapassar esse período".
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Uma forma prática de descobrir se o orçamento realmente funciona é simular a vida depois da mudança durante alguns meses.
"Se você estima que suas despesas essenciais serão de R$ 3.500 por mês, passe três meses transferindo esse valor para uma conta separada. Se o salário é R$ 5.000, você deve passar a viver com os R$ 1.500 restantes", ensina a contadora.
Ao final do período, você vai entender se consegue viver confortável dentro do orçamento previsto e ainda acumular um valor considerável em dinheiro. “Descobrir se o orçamento funciona enquanto você ainda mora com os pais é muito melhor do que perceber que ele não fecha depois de assinar o contrato de aluguel”, destaca Laíssa.
Roteiro certeiro para mandar bem morando sozinho
Para Laíssa Gusmão, o planejamento financeiro para se mudar pode ser resumido em três perguntas:
- Quanto custa entrar?
- Quanto custa manter?
- Quanto preciso ter guardado se a vida sair do planejado?
Com todas essas respostas, comece a juntar dinheiro mensalmente. "Imagine um cenário hipotético de uma pessoa que quer sair da casa dos pais em 12 meses. Ela estimou que vai precisar de R$ 8 mil para os custos iniciais e de uma reserva de emergência de R$ 15 mil. Nesse caso, a meta total é alcançar R$ 23 mil. Para isso, seria necessário guardar cerca de R$ 1.917 por mês", exemplifica.
A conta é simples: valor necessário para a mudança + reserva de emergência ÷ número de meses até a mudança. Se o resultado não couber no orçamento, pode ser necessário rever alguma variável, como prazo da mudança ou custo da moradia.
Fonte: Laíssa Gusmão é contadora e sócia cofundadora da Efiz Consultoria. Ela tem pós-graduação em contabilidade gestão tributária e auditoria.
É suficiente ter uma renda fixa para morar sozinho?
Não, morar sozinho é uma decisão importante e que pode envolver ter que lidar com custos inesperados. Por isso, é preciso ter condições financeiras para bancar emergências.
Quanto dinheiro preciso ter antes de me mudar?
Não existe um valor único ideal, porque ele depende principalmente de quanto custa manter a vida de cada pessoa. Porém, além do aluguel e das contas básicas, é recomendável criar uma reserva financeira de pelo menos três a seis meses das despesas essenciais para lidar com imprevistos.
O que considerar ao planejar morar sozinho?
Segundo Laíssa Gusmão, o planejamento precisa considerar despesas fixas (aluguel, água, luz, internet, etc), despesas que não aparecem todos os meses e possíveis mudanças de renda.


