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Alfabetização bilíngue amplia caminhos para crianças surdas

Libras como primeira língua ajuda estudantes a construir conceitos e aprender português escrito

Vitória Sacramento
Por Vitória Sacramento
Parceria entre Libras e português escrito fortalece o ensino para alunos surdos
Parceria entre Libras e português escrito fortalece o ensino para alunos surdos - Foto: Divulgação / Prefeitura de Camaçari

Aprender a ler e escrever envolve mais do que reconhecer letras e juntar palavras. Para crianças surdas, o processo de alfabetização também passa pelo direito de ter acesso a uma língua desde os primeiros anos de vida. Nesse contexto, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) ocupa papel central na construção de conceitos, na comunicação e, posteriormente, na aprendizagem da Língua Portuguesa escrita.

No Dia Nacional do Surdo, celebrado neste sábado, 26, o debate sobre alfabetização ganha uma dimensão que vai além da presença de intérpretes em sala de aula: é preciso garantir que a criança tenha condições linguísticas para compreender o que está aprendendo. A data foi instituída pela Lei nº 11.796, de 2008, como uma reflexão sobre os direitos e a inclusão da população surda.

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A proposta da educação bilíngue parte justamente dessa perspectiva. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), nessa modalidade, a Libras é utilizada como língua de instrução, interação, comunicação e ensino, enquanto o português escrito é trabalhado como segunda língua.

Na prática, isso significa que uma criança não precisa aprender primeiro a correspondência entre letras e sons para depois ter acesso ao conhecimento. Ela pode construir conceitos por meio de uma língua visual-espacial e, a partir deles, estabelecer relações com a escrita.

“Primeiro buscamos garantir que a criança compreenda o conceito em Libras e, posteriormente, estabelecemos relações com a Língua Portuguesa escrita”, explica Elvira Laporte, coordenadora da Educação Especial Inclusiva da Secretaria Municipal da Educação de Camaçari.

O trabalho de alfabetização de estudantes surdos pode envolver imagens, objetos, histórias, jogos, vídeos e situações do cotidiano. Em vez de depender apenas da memorização de palavras, a estratégia busca relacionar o sinal em Libras ao conceito e, posteriormente, à palavra escrita.

“Utilizamos principalmente estratégias visuais e bilíngues. Trabalhamos com imagens, objetos, situações do cotidiano, histórias, jogos, vídeos, associação entre imagem, sinal e palavra escrita, além de atividades contextualizadas”, afirma Elvira.

Camaçari adota educação bilíngue para alfabetizar estudantes surdos com apoio da Libras
Camaçari adota educação bilíngue para alfabetizar estudantes surdos com apoio da Libras - Foto: Divulgação / Prefeitura de Camaçari

A diferença está na própria estrutura linguística. A Libras não é simplesmente uma tradução do português feita com as mãos. Trata-se de uma língua com características próprias, de modalidade visual-espacial. Por isso, a alfabetização em português precisa considerar as particularidades linguísticas dos estudantes surdos.

Na rede municipal de Camaçari, segundo a Secretaria da Educação, 18 estudantes surdos estão matriculados da Educação Infantil aos Anos Finais. Oito deles, com idades entre 7 e 21 anos, estão atualmente em processo de alfabetização no serviço especializado.

O município informa ainda que os estudantes surdos já alfabetizados matriculados na rede regular contam com intérpretes de Libras. No atendimento voltado à alfabetização, professores trabalham o desenvolvimento da Libras e do português escrito de maneira articulada.

A língua antes da palavra escrita

Aprendizagem em Libras e português escrito impulsiona a inclusão
Aprendizagem em Libras e português escrito impulsiona a inclusão - Foto: Divulgação / Prefeitura de Camaçari

A relação entre Libras e alfabetização é especialmente importante porque a criança precisa ter acesso a uma língua que lhe permita nomear, compreender e organizar experiências. Sem esse repertório, o processo de aprendizagem da escrita pode se tornar ainda mais complexo.

Na experiência relatada pela equipe de Camaçari, o professor surdo Caio César Gondin trabalha principalmente o desenvolvimento da Libras como primeira língua, ampliando vocabulário, expressão e construção de conceitos. Já a professora Izabel Cristina Santos atua com a Língua Portuguesa escrita como segunda língua.

A proposta é que os dois processos não aconteçam de maneira isolada.

“Dessa forma, o conhecimento construído em Libras pode contribuir para a compreensão e produção da Língua Portuguesa escrita”, explica Elvira.

A estratégia está alinhada à concepção adotada pelo Inep para a educação bilíngue de surdos, na qual a Libras deve ocupar papel central no processo pedagógico, e não apenas funcionar como recurso de comunicação ou apoio em determinados momentos da aula.

Desafio ultrapassa a sala de aula

Aprendizagem em Libras e português escrito amplia a autonomia dos estudantes
Aprendizagem em Libras e português escrito amplia a autonomia dos estudantes - Foto: Divulgação / Prefeitura de Camaçari

O acesso à língua também envolve a família. Para muitas crianças surdas, a escola pode ser um dos primeiros espaços em que existe contato sistemático com a Libras. Por isso, a participação dos familiares pode ampliar as oportunidades de comunicação e aprendizagem fora do ambiente escolar.

Em Camaçari, segundo a Secretaria da Educação, familiares participam de momentos de aprendizagem de Libras junto com os filhos. A orientação inclui o uso de situações da rotina, imagens, objetos, sinais e palavras escritas.

“A comunicação não deve ficar restrita ao espaço escolar”, destaca Elvira.

A discussão ocorre em um cenário no qual a educação especial na Bahia tem ampliado a presença de estudantes em classes comuns. Na Bahia, o Censo Escolar 2024 registrou 1.258 estudantes com surdez matriculados em classes comuns do ensino regular e/ou da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O levantamento contabilizou ainda 3.972 estudantes com deficiência auditiva e 57 com surdocegueira no estado.

Na rede estadual, eram 336 estudantes declarados com surdez em abril de 2025. Segundo a Secretaria da Educação do Estado (SEC), em 2026 são 593 alunos matriculados da rede estadual de ensino. O atendimento conta com profissionais como intérpretes e instrutores de Libras.

Além de garantir matrícula, a alfabetização de crianças surdas coloca em discussão o direito à aprendizagem em uma língua acessível. Nesse processo, Libras e português escrito passam a integrar uma formação que busca ampliar a autonomia e a participação da criança na escola e na sociedade.

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camaçari educação inclusiva SEC

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