
A força política construída fora das prefeituras tem um peso decisivo na eleição para o Governo da Bahia, que deve, mais uma vez, ser decidida "no detalhe" este ano. Ex-prefeitos, vereadores, vice-prefeitos e lideranças que perderam disputas municipais, mas mantêm influência em suas cidades, são alvo de articulação dos principais grupos que disputam o Palácio de Ondina em 2026.
Na política baiana, esse contingente de lideranças é frequentemente chamado de “banda B”. O termo, que não é uma classificação oficial, passou a ser utilizado para identificar políticos que não estão necessariamente no centro da estrutura de poder de seus grupos, mas preservam capacidade de mobilização, votos e influência nos municípios.
Este ano, os candidatos ao Governo do Estado ACM Neto (União Brasil) e Jerônimo Rodrigues (PT) têm como uma de suas apostas o investimento na “banda B” de diversos municípios da Bahia. Neste mês de setembro, por exemplo, o atual governador reuniu mais de 200 ex-prefeitos para apoiar sua campanha; enquanto isso, Neto busca apoios estratégicos, como o do ex-prefeito de Juazeiro Isaac Carvalho e de Rodrigo Hagge (PSDB), ex-gestor de Itapetinga.
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O portal A TARDE realizou a reportagem explicando detalhes, com exemplos, e trazendo para o debate a importância da banda B para as eleições da Bahia.
O grande exemplo
A estratégia não é nova. Na eleição de 2006, Jaques Wagner (PT) conseguiu romper 16 anos de domínio do então PFL na Bahia, liderado pelo ex-senador Antônio Carlos Magalhães (1927-2007) ao ampliar sua presença para além dos grandes centros e conquistar apoio de lideranças municipais ligadas ao grupo adversário.
Dados finais do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) mostram que Wagner venceu Paulo Souto (PFL) em 229 dos 417 municípios baianos, o equivalente a 54,91% das cidades do estado. A vitória ocorreu apesar de o então governador contar, em tese, com uma base aliada formada por cerca de 370 prefeituras.
Naquele ano, Wagner declarou que tinha o apoio formal de 55 prefeitos, mas conseguiu vencer em mais de quatro vezes esse número de municípios. O resultado foi interpretado pelo próprio petista como consequência da capacidade de atrair lideranças descontentes com o grupo político que havia comandado o estado durante anos.
“Invadimos os grotões do PFL, rachamos o partido e trouxemos para o nosso lado os descontentes com o sistema político vigente desde 90”, afirmou Wagner após a confirmação da vitória.

A estratégia da “banda B” em 2006
A movimentação também alcançou candidatos que haviam disputado eleições municipais pelo PFL e saído derrotados. Segundo Wagner, desde que foi confirmado como candidato ao governo, ele procurou conversar com candidatos a prefeito que haviam perdido as eleições e que, em alguns casos, haviam sido derrotados por políticos do próprio grupo.
A estratégia foi reconhecida até por integrantes da oposição. Reeleito deputado federal naquele ano, José Carlos Aleluia (então filiado ao PFL) admitiu que a articulação construída por Wagner havia sido relevante para o resultado.
Talvez, nós tenhamos subestimado estes acordos José Carlos Aleluia - Deputado federal recém-reeleito em 2006
Pequenas e médias cidades
O peso das pequenas e médias cidades ficou evidente nos números na eleição de 2006. Wagner venceu em oito das dez maiores cidades da Bahia — Salvador, Feira de Santana, Ilhéus, Barreiras, Juazeiro, Jequié, Camaçari e Alagoinhas.
Mesmo nos grandes municípios em que perdeu, o petista conseguiu reduzir a desvantagem. Em Itabuna, a diferença favorável a Souto ficou abaixo de 2 mil votos. Em Vitória da Conquista, foram 3.166 votos de vantagem para o candidato à reeleição.
Em Salvador, maior colégio eleitoral do estado, Wagner abriu uma vantagem expressiva: recebeu 678.017 votos, ou 56,71%, contra 408.221 de Paulo Souto, equivalente a 34,15%.

Para o então deputado federal Geddel Vieira Lima (PMDB), a amplitude da aliança oposicionista foi determinante para a vitória: “As oposições perderam muitas eleições na Bahia porque nunca se uniram. Neste ano foi diferente, fizemos um arco muito grande de alianças e sepultamos o carlismo”.
Banda B volta ao centro da disputa
Quase duas décadas depois, o conceito voltou a aparecer no discurso dos principais grupos políticos baianos. Em 2026, a chamada “banda B” é apresentada como uma peça importante da disputa pelo interior, justamente por reunir lideranças que não necessariamente ocupam cargos no Executivo municipal, mas continuam com capacidade de articulação.
O governador Jerônimo Rodrigues, candidato à reeleição, tem destacado a necessidade de manter a aproximação não apenas com prefeitos, mas também com ex-gestores, vereadores e movimentos sociais.
“Fizemos um evento muito grande anteontem, aqui em Salvador. Trouxemos mais de 300 prefeitos. Nós acreditamos na parceria com os prefeitos, na força que o prefeito tem, mas a gente não abre mão dos movimentos sociais, não abre mão dos ex-prefeitos, da chamada banda B em cada canto”, disse o governador durante agenda em Salvador com 200 ex-prefeitos.

Oposição também mira lideranças
A estratégia, porém, não é exclusiva do grupo governista. O ex-prefeito de Salvador e candidato de oposição ACM Neto também afirma ter ampliado a articulação no interior e aposta justamente em lideranças que não ocupam atualmente o comando das prefeituras.
Em entrevista ao portal A TARDE, Neto afirmou que ex-prefeitos, vereadores e outras lideranças municipais passaram a integrar a estrutura de sua candidatura.
“Essa construção política no interior tem uma importância muito grande para a nossa candidatura. São ex-prefeitos, vereadores e lideranças que têm história, voto e presença nos seus municípios e que estão se somando ao nosso projeto. [...] Tenho convicção de que esse fortalecimento vai nos ajudar a crescer muito no interior e a reduzir de maneira significativa a diferença que tivemos nessas cidades na eleição passada”, afirmou.

O candidato reconheceu que, na eleição anterior, enfrentou dificuldades para estabelecer uma representação política mais ampla em municípios pequenos e médios. Para ele, a situação mudou em 2026.
“Na eleição passada, em muitas cidades pequenas e médias, nós não tínhamos uma representação política capaz de defender a nossa candidatura e dialogar diretamente com a população. Hoje, a realidade é outra. Estamos organizados nos 417 municípios e ampliando essa base a cada dia”, avaliou ACM Neto, que busca romper os 20 anos consecutivos de governos petistas na Bahia.
Por que a “banda B” pode fazer diferença
A lógica por trás da disputa é simples: uma eleição estadual não é decidida apenas pela quantidade de prefeitos formalmente alinhados a cada candidato. A capacidade de mobilização de lideranças que já ocuparam o Executivo municipal, disputaram eleições ou mantêm grupos políticos próprios também pode influenciar o desempenho das chapas.
É nesse espaço que entram os ex-prefeitos que deixaram o cargo, mas continuam com redes de apoio; os candidatos derrotados em eleições municipais, que podem carregar uma base eleitoral própria; vereadores que funcionam como ponte entre as campanhas estaduais e os bairros e comunidades; e grupos locais que, embora estejam fora da estrutura oficial das prefeituras, continuam participando da política municipal.
Na avaliação do cientista político Cláudio André de Souza, a “expectativa de poder” é um dos fatores que influenciam na escolha de apoio da "banda B" na eleição estadual. Em entrevista ao portal A TARDE, o especialista também pontuou que há ligação direta entre os pleitos municipais e a disputa pelo Palácio de Ondina, formando uma confluência entre os cenários.

"Obviamente que o governo quer ter o máximo de eleitores dentro de cada município, mas, às vezes, essa situação fica muito difícil, exatamente pela força da máquina. Vejo que a importância [da banda B] é enorme e que uma oposição quer se construir num campo de disputa mais efetiva. Vejo várias oposições municipais que querem estabelecer uma relação muito forte no eleitorado de apoio que deve ser dada na coincidência dessas duas eleições" , avaliou Cláudio André.
Ocorre que em vários municípios você tem a modulação de uma disputa de dois grupos que fazem parte exatamente do apoio ao Governo do Estado, independente de partido. [...] No grau de competição política municipal, no campo de quem está na banda B, que quem está na situação se relacionando com o Governo do Estado larga na frente Cláudio André de Souza - Cientista político
O exemplo de 2006 é usado como referência justamente porque a votação obtida por Wagner ultrapassou, naquele momento, a quantidade de prefeitos que declaravam apoio à sua candidatura. A presença de aliados em municípios onde o PT não controlava a prefeitura ajudou a ampliar a capilaridade da campanha.
Em 2026, os dois principais grupos políticos da Bahia apresentam estratégias semelhantes nesse aspecto: procuram transformar lideranças municipais sem mandato executivo em pontos de apoio para suas candidaturas.
Da prefeitura ao palanque estadual
Em suma, a disputa pela chamada “banda B” revela uma característica histórica da política baiana: a influência municipal não termina necessariamente com o fim de um mandato. Um ex-prefeito pode deixar a prefeitura sem perder o controle de um grupo político. Da mesma forma, um candidato derrotado em uma eleição municipal pode continuar reunindo vereadores, lideranças comunitárias e eleitores em torno de seu grupo.
É por isso que as campanhas estaduais procuram mapear não apenas quem ocupa as prefeituras, mas também quem tem capacidade de movimentar votos dentro delas. Em um estado com 417 municípios e realidades políticas distintas, a construção dessa rede pode ser especialmente relevante em cidades pequenas e médias, onde diferenças relativamente pequenas de votos podem alterar o resultado estadual.
O que é a "banda B" na política da Bahia?
A "banda B" é composta por lideranças políticas que, embora não estejam ocupando os cargos de poder no momento, ainda detêm influência e capacidade de mobilização em suas comunidades. Esses líderes podem ser ex-prefeitos, vereadores ou pessoas com histórico político que mantém uma base de apoio significativa.
Como a "banda B" influencia as eleições na Bahia?
As eleições na Bahia, especialmente para o Governo do Estado, são frequentemente decididas por detalhes. O apoio de lideranças da "banda B" pode ser crucial, pois essas figuras têm o poder de mobilizar votos e influenciar a opinião pública local contra adversários.
Qual o histórico da "banda B" nas eleições baianas?
A estratégia de abordar a "banda B" não é nova e foi usada com sucesso nas eleições de 2006, quando Jaques Wagner conquistou apoio mesmo de cidades onde não tinha prefeitos. A busca por esse tipo de apoio se repete agora, destacando seu papel em campanhas políticas.
Por que os candidatos buscam o apoio da "banda B"?
Candidatos como ACM Neto e Jerônimo Rodrigues reconhecem a importância de fortalecer as relações com ex-prefeitos e vereadores para ampliar suas bases de apoio. A articulação com a "banda B" é uma chave estratégica para conquistar votos em municípios menores.
Por que a presença da "banda B" é tão importante em cidades menores?
O conceito de "banda B" é uma medida da capacidade de mobilização e apoio em áreas onde os candidatos não têm base sólida, especialmente em cidades pequenas e médias, onde cada voto conta. Assim, a presença dessas lideranças pode alterar significativamente os resultados nas eleições.



