LULA EM SALVADOR
Lula usa caminhada na Liberdade para reforçar projeto eleitoral na Bahia
Primeiro ato de rua do presidente em 2026 combinou apresentação de balanço e pedidos de votos



A escolha da Liberdade como ponto de partida para o primeiro ato de rua de Lula (PT) nas eleições de 2026 em Salvador foi mais do que uma definição logística. Ao trocar a região da Barra, inicialmente prevista para receber a caminhada, por um dos bairros populares mais tradicionais da capital baiana, o presidente levou a campanha para um território de forte identificação com o eleitorado popular e, ao mesmo tempo, com a trajetória política do candidato ao Senado Rui Costa (PT), criado na região.
O movimento também teve um objetivo eleitoral explícito: reforçar a associação entre as candidaturas de Lula e do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e tentar conter a possibilidade de um voto dividido entre o presidente e o candidato da oposição ao governo estadual, ACM Neto (União Brasil).
O ato reuniu, segundo informações divulgadas pela campanha, mais de 20 mil pessoas. Lula percorreu cerca de 1,2 quilômetro entre o Largo do Guarani e o Plano Inclinado, em um trajeto que durou aproximadamente duas horas. O presidente esteve acompanhado de Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner (PT), além de outros aliados.
A estrutura do ato também ajudou a construir essa imagem. Um trio elétrico foi colocado à frente, destinado à imprensa, enquanto Lula caminhava atrás, próximo ao público. Um carro com os integrantes da chapa majoritária baiana acompanhou o percurso.

Ao final, Lula fez um pedido direto aos eleitores baianos. A fala sintetizou a estratégia da visita: vincular sua candidatura à de Jerônimo e aos nomes petistas que disputam o Senado.
“Certamente, ele votará em Jerônimo para governador, no Lula para o presidente, no Rui e no Wagner para governador.”
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Liberdade como escolha política
A campanha petista nunca havia realizado um ato com essa dimensão no bairro da Liberdade, segundo as informações apresentadas durante a agenda. A escolha permitiu ao presidente se apresentar em contato direto com um público que tradicionalmente integra a base eleitoral do PT.
A região também tem peso simbólico para Rui Costa. Ex-governador e ex-ministro da Casa Civil, ele foi criado na Liberdade e disputa uma das vagas ao Senado na chapa encabeçada por Jerônimo.

Lula fez questão de explicar a mudança de cenário em relação à programação inicialmente prevista. “É a primeira vez que eu venho à Bahia e, ao invés de fazer um ato no centro da cidade, nós vamos fazer uma caminhada no bairro da Liberdade.”
A dimensão do público serviu ainda como demonstração de força eleitoral. A Bahia é um dos principais redutos de Lula no país: no segundo turno da eleição presidencial de 2022, ele obteve mais de 70% dos votos no estado e venceu em 415 dos 417 municípios baianos. A meta neste ano é ampliar ainda mais e ultrapassar a marca de 5 milhões de votos.
De olho no primeiro turno
A Bahia também foi utilizada por Lula para fazer uma defesa de sua estratégia nacional. Ao afirmar que o grupo tem condições de vencer a eleição presidencial já no primeiro turno, o presidente pediu aos aliados um “esforço incomum” na campanha.
“Temos tudo para vencer no primeiro turno. Eu queria que vocês soubessem que só estamos aqui por causa de vocês.”, afirmou.
A declaração transforma o ato baiano em uma espécie de demonstração antecipada da capacidade de mobilização do PT no estado. A concentração na Liberdade, portanto, teve dupla função: apresentar força eleitoral local e alimentar a narrativa nacional de que a candidatura presidencial pode encerrar a disputa ainda na primeira votação.
Durante o percurso, também foram observadas manifestações de apoio a ACM Neto. Alguns moradores exibiram banners do candidato em suas casas ao longo do trajeto, sinalizando que, apesar da forte mobilização petista, a disputa pelo eleitorado soteropolitano não está restrita à base tradicional de Lula.
Soberania nacional
Se a caminhada teve uma função essencialmente eleitoral, o conteúdo apresentado por Lula procurou ampliar o alcance do ato. O presidente dedicou parte significativa do discurso à defesa da autossuficiência brasileira, especialmente em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento econômico e tecnológico.
Lula relacionou investimentos em educação, ciência e tecnologia à redução da dependência do Brasil em relação a outras potências, citando diretamente China e Estados Unidos.
“Não queremos defender China ou Estados Unidos defender o povo brasileiro.”
Nesse contexto, mencionou a exploração de minerais críticos e terras raras, defendendo que o país precisa desenvolver conhecimento e tecnologia para transformar seus próprios recursos naturais em capacidade produtiva.
A mesma lógica foi aplicada à inteligência artificial. O presidente apresentou a tecnologia como uma área na qual o Brasil precisa formar profissionais e desenvolver conhecimento próprio, em vez de depender exclusivamente de soluções produzidas no exterior.
A defesa da educação apareceu, portanto, não apenas como uma pauta social, mas como parte de um projeto de soberania econômica e tecnológica.
Educação como promessa para novo mandato
Lula também utilizou a passagem por Salvador para destacar resultados que atribui aos governos petistas e apresentar compromissos para uma eventual nova gestão.
Entre as propostas apresentadas está a ampliação da educação em tempo integral. Ao falar sobre a formação de profissionais, afirmou:
“Quando chegamos à presidência, tínhamos apenas 5 milhões de estudantes com diplomas universitários no mercado de trabalho. [...] Agora temos 25 milhões. Primeiro, o compromisso de fazer escola em tempo integral em todo território nacional, para garantir a tranquilidade de pais e mães.”
O presidente ainda associou educação à formação social desde a primeira infância, defendendo discussões sobre igualdade entre homens e mulheres nas escolas.
“No Brasil, mulher não aceita apanhar de homem [...] A menina não é inferior ao menino, nem o menino é superior a menina. Temos que ensinar isso desde as creches.”
Balanço de investimentos na Bahia
A passagem por Salvador também serviu para a campanha federal apresentar um balanço das ações realizadas na Bahia durante o governo Lula.
Entre os pontos destacados estão a construção de institutos federais, os investimentos do Novo PAC e os recursos destinados a projetos de infraestrutura no estado.

A Ponte Salvador-Itaparica também apareceu entre os projetos citados como parte da agenda de investimentos federais e dos incentivos para a execução da obra.
A estratégia é apresentar a Bahia como um dos estados beneficiados pela retomada de investimentos federais em infraestrutura, educação e desenvolvimento, conectando essas ações ao discurso de continuidade do governo.
Crítica à entrevista no Jornal Nacional
Antes da caminhada, Lula também aproveitou a presença de jornalistas para cutucar a sabatina realizada pelo Jornal Nacional na noite de quinta-feira, 27.
O presidente disse que esperava apresentar durante a entrevista ações realizadas em seu governo e propostas para um eventual novo mandato, mas avaliou que não teve oportunidade de fazê-lo.
“Eu nunca me preparei tanto, decorando tudo que nós fizemos para que a gente possa mostrar o Brasil”, afirmou.
O primeiro bloco da entrevista foi concentrado em perguntas sobre as suspeitas envolvendo Lulinha, a fraude no INSS e o caso Master.
Sem questionar o comportamento dos jornalistas, Lula disse que pretende aproveitar as agendas pelos estados para apresentar diretamente suas propostas e os resultados do governo ao lado dos candidatos aliados.
“Eu decidi que daqui para frente, em cada estado que a gente for, a gente vai tentar trabalhar com os nossos candidatos ao governador e com os nossos candidatos ao Senado, para que a gente possa mostrar com muita clareza as coisas que a gente faz.”
Em suma
Em Salvador, a fórmula foi colocada em prática: um ato de massa em um bairro popular, discurso sobre realizações do governo federal e, sobretudo, uma mensagem eleitoral para que o eleitor associe Lula a Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner.
Assim, a caminhada na Liberdade funcionou simultaneamente como demonstração de força, prestação de contas e ensaio da estratégia petista para a eleição baiana — em um estado onde Lula parte de uma posição eleitoral historicamente favorável, mas onde seu grupo precisa evitar que a força presidencial seja convertida em votos para a oposição na disputa pelo governo.


