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LULA EM SALVADOR

Lula usa caminhada na Liberdade para reforçar projeto eleitoral na Bahia

Primeiro ato de rua do presidente em 2026 combinou apresentação de balanço e pedidos de votos

Leo Almeida
Por
Lula percorreu o trajeto entre o Largo do Guarani e o Plano Inclinado
Lula percorreu o trajeto entre o Largo do Guarani e o Plano Inclinado - Foto: Raphaël Müller | Ag. A TARDE
Eleições 2026

A escolha da Liberdade como ponto de partida para o primeiro ato de rua de Lula (PT) nas eleições de 2026 em Salvador foi mais do que uma definição logística. Ao trocar a região da Barra, inicialmente prevista para receber a caminhada, por um dos bairros populares mais tradicionais da capital baiana, o presidente levou a campanha para um território de forte identificação com o eleitorado popular e, ao mesmo tempo, com a trajetória política do candidato ao Senado Rui Costa (PT), criado na região.

O movimento também teve um objetivo eleitoral explícito: reforçar a associação entre as candidaturas de Lula e do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e tentar conter a possibilidade de um voto dividido entre o presidente e o candidato da oposição ao governo estadual, ACM Neto (União Brasil).

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O ato reuniu, segundo informações divulgadas pela campanha, mais de 20 mil pessoas. Lula percorreu cerca de 1,2 quilômetro entre o Largo do Guarani e o Plano Inclinado, em um trajeto que durou aproximadamente duas horas. O presidente esteve acompanhado de Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner (PT), além de outros aliados.

A estrutura do ato também ajudou a construir essa imagem. Um trio elétrico foi colocado à frente, destinado à imprensa, enquanto Lula caminhava atrás, próximo ao público. Um carro com os integrantes da chapa majoritária baiana acompanhou o percurso.

Lula e a chapa majoritária petista na Bahia
Lula e a chapa majoritária petista na Bahia - Foto: Raphaël Müller | Ag. A TARDE

Ao final, Lula fez um pedido direto aos eleitores baianos. A fala sintetizou a estratégia da visita: vincular sua candidatura à de Jerônimo e aos nomes petistas que disputam o Senado.

“Certamente, ele votará em Jerônimo para governador, no Lula para o presidente, no Rui e no Wagner para governador.”

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NA BRONCA

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Liberdade como escolha política

A campanha petista nunca havia realizado um ato com essa dimensão no bairro da Liberdade, segundo as informações apresentadas durante a agenda. A escolha permitiu ao presidente se apresentar em contato direto com um público que tradicionalmente integra a base eleitoral do PT.

A região também tem peso simbólico para Rui Costa. Ex-governador e ex-ministro da Casa Civil, ele foi criado na Liberdade e disputa uma das vagas ao Senado na chapa encabeçada por Jerônimo.

Lula ficou próximo da população durante o trajeto
Lula ficou próximo da população durante o trajeto - Foto: Raphaël Müller | Ag. A TARDE

Lula fez questão de explicar a mudança de cenário em relação à programação inicialmente prevista. “É a primeira vez que eu venho à Bahia e, ao invés de fazer um ato no centro da cidade, nós vamos fazer uma caminhada no bairro da Liberdade.”

A dimensão do público serviu ainda como demonstração de força eleitoral. A Bahia é um dos principais redutos de Lula no país: no segundo turno da eleição presidencial de 2022, ele obteve mais de 70% dos votos no estado e venceu em 415 dos 417 municípios baianos. A meta neste ano é ampliar ainda mais e ultrapassar a marca de 5 milhões de votos.

De olho no primeiro turno

A Bahia também foi utilizada por Lula para fazer uma defesa de sua estratégia nacional. Ao afirmar que o grupo tem condições de vencer a eleição presidencial já no primeiro turno, o presidente pediu aos aliados um “esforço incomum” na campanha.

“Temos tudo para vencer no primeiro turno. Eu queria que vocês soubessem que só estamos aqui por causa de vocês.”, afirmou.

A declaração transforma o ato baiano em uma espécie de demonstração antecipada da capacidade de mobilização do PT no estado. A concentração na Liberdade, portanto, teve dupla função: apresentar força eleitoral local e alimentar a narrativa nacional de que a candidatura presidencial pode encerrar a disputa ainda na primeira votação.

Durante o percurso, também foram observadas manifestações de apoio a ACM Neto. Alguns moradores exibiram banners do candidato em suas casas ao longo do trajeto, sinalizando que, apesar da forte mobilização petista, a disputa pelo eleitorado soteropolitano não está restrita à base tradicional de Lula.

Soberania nacional

Se a caminhada teve uma função essencialmente eleitoral, o conteúdo apresentado por Lula procurou ampliar o alcance do ato. O presidente dedicou parte significativa do discurso à defesa da autossuficiência brasileira, especialmente em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento econômico e tecnológico.

Lula relacionou investimentos em educação, ciência e tecnologia à redução da dependência do Brasil em relação a outras potências, citando diretamente China e Estados Unidos.

“Não queremos defender China ou Estados Unidos defender o povo brasileiro.”

Nesse contexto, mencionou a exploração de minerais críticos e terras raras, defendendo que o país precisa desenvolver conhecimento e tecnologia para transformar seus próprios recursos naturais em capacidade produtiva.

A mesma lógica foi aplicada à inteligência artificial. O presidente apresentou a tecnologia como uma área na qual o Brasil precisa formar profissionais e desenvolver conhecimento próprio, em vez de depender exclusivamente de soluções produzidas no exterior.

A defesa da educação apareceu, portanto, não apenas como uma pauta social, mas como parte de um projeto de soberania econômica e tecnológica.

Educação como promessa para novo mandato

Lula também utilizou a passagem por Salvador para destacar resultados que atribui aos governos petistas e apresentar compromissos para uma eventual nova gestão.

Entre as propostas apresentadas está a ampliação da educação em tempo integral. Ao falar sobre a formação de profissionais, afirmou:

“Quando chegamos à presidência, tínhamos apenas 5 milhões de estudantes com diplomas universitários no mercado de trabalho. [...] Agora temos 25 milhões. Primeiro, o compromisso de fazer escola em tempo integral em todo território nacional, para garantir a tranquilidade de pais e mães.”

O presidente ainda associou educação à formação social desde a primeira infância, defendendo discussões sobre igualdade entre homens e mulheres nas escolas.

“No Brasil, mulher não aceita apanhar de homem [...] A menina não é inferior ao menino, nem o menino é superior a menina. Temos que ensinar isso desde as creches.”

Balanço de investimentos na Bahia

A passagem por Salvador também serviu para a campanha federal apresentar um balanço das ações realizadas na Bahia durante o governo Lula.

Entre os pontos destacados estão a construção de institutos federais, os investimentos do Novo PAC e os recursos destinados a projetos de infraestrutura no estado.

Lula apresentou dados dos investimentos na Bahia
Lula apresentou dados dos investimentos na Bahia - Foto: Raphaël Müller | Ag. A TARDE

A Ponte Salvador-Itaparica também apareceu entre os projetos citados como parte da agenda de investimentos federais e dos incentivos para a execução da obra.

A estratégia é apresentar a Bahia como um dos estados beneficiados pela retomada de investimentos federais em infraestrutura, educação e desenvolvimento, conectando essas ações ao discurso de continuidade do governo.

Crítica à entrevista no Jornal Nacional

Antes da caminhada, Lula também aproveitou a presença de jornalistas para cutucar a sabatina realizada pelo Jornal Nacional na noite de quinta-feira, 27.

O presidente disse que esperava apresentar durante a entrevista ações realizadas em seu governo e propostas para um eventual novo mandato, mas avaliou que não teve oportunidade de fazê-lo.

“Eu nunca me preparei tanto, decorando tudo que nós fizemos para que a gente possa mostrar o Brasil”, afirmou.

O primeiro bloco da entrevista foi concentrado em perguntas sobre as suspeitas envolvendo Lulinha, a fraude no INSS e o caso Master.

Sem questionar o comportamento dos jornalistas, Lula disse que pretende aproveitar as agendas pelos estados para apresentar diretamente suas propostas e os resultados do governo ao lado dos candidatos aliados.

“Eu decidi que daqui para frente, em cada estado que a gente for, a gente vai tentar trabalhar com os nossos candidatos ao governador e com os nossos candidatos ao Senado, para que a gente possa mostrar com muita clareza as coisas que a gente faz.”

Em suma

Em Salvador, a fórmula foi colocada em prática: um ato de massa em um bairro popular, discurso sobre realizações do governo federal e, sobretudo, uma mensagem eleitoral para que o eleitor associe Lula a Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner.

Assim, a caminhada na Liberdade funcionou simultaneamente como demonstração de força, prestação de contas e ensaio da estratégia petista para a eleição baiana — em um estado onde Lula parte de uma posição eleitoral historicamente favorável, mas onde seu grupo precisa evitar que a força presidencial seja convertida em votos para a oposição na disputa pelo governo.

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