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CRIME SEXUAL

Exclusivo: Advogado acusado de estuprar jovem em seleção de estágio nega crime e rebate alegações

Crime ocorreu em outubro de 2019, um dia após a vítima completar 22 anos

Andrêzza Moura
Por
Marcela resolveu contar sua história para incentivar outras possíveis vítimas do advogado a denunciá-lo
Marcela resolveu contar sua história para incentivar outras possíveis vítimas do advogado a denunciá-lo - Foto: Arquivo pessoal

Há quase oito anos, a advogada Marcela Ribeiro Santos Macedo, 28, busca na Justiça a condenação do também advogado Silvio Nei Oliveira da Silveira, 50. Ela acusa o homem de tê-la dopado e estuprado no dia 4 de outubro de 2019, um dia depois de completar 22 anos. Ele tinha 43.

Marcela contou que o crime ocorreu dentro do escritório de Silvio Nei, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), enquanto participava de uma seleção de estágio. À época, ela era estudante de direito de uma faculdade particular.

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Em conversa com o A TARDE, a jovem contou que não conhecia o advogado e que havia deixado currículos em escritórios da cidade. Segundo ela, durante a conversa, o homem perguntou se ela bebia e, diante da resposta que estava começando a consumir vinho, ele pediu, por meio de um aplicativo, uma garrafa da bebida.

Silvio Nei afirma que este é o primeiro processo criminal que responde
Silvio Nei afirma que este é o primeiro processo criminal que responde - Foto: Reprodução Redes Sociais

“O vinho chegou fechado. O entregador deixou dentro do escritório, foi aberto na minha frente. Ele colocou no meu copo, colocou no copo dele, continuamos bebendo e conversando”, lembra, ao afirmar que o homem insistiu para que ela ficasse até o fim do expediente.

Ainda de acordo com Marcela, em um determinado momento, o advogado interfonou para o porteiro do prédio e solicitou que ele comprasse outra garrafa de vinho e, como não tinha como abrir no escritório, a trouxesse já aberta.

"Quando o porteiro subiu, ele entregou o dinheiro e o porteiro saiu novamente e voltou com a garrafa de Pérgola [vinho]. Quando o porteiro trouxe, ele falou assim: 'abre lá embaixo, porque a aqui não tem o aparelho [abridor] que tira a rosca'. Depois disso, comecei a passar muito mal e vomitei”, relembra.

Desacordada

A advogada diz que não se lembra do que aconteceu posteriormente. Mas, no dia seguinte, foi questionada pela mãe sobre o que havia acontecido e tomou conhecimento de algumas marcas em seu pescoço e no seio.

“Quando eu acordei de novo, minha mãe veio conversar comigo perguntando o que é que estava acontecendo, porque meu pescoço estava cheio de chupões [hematoma causado por sucção ou mordida forte durante um beijo]", conta.

Ela disse que, diante da situação, procurou o acusado para saber o que havia acontecido e que ele teria respondido que, provavelmente, havia caído. Ainda segundo Marcela, após o questionamento sobre as marcas, recebeu a seguinte mensagem de Silvio Nei: "parece que você está com dúvidas do nosso envolvimento de ontem".

Crime foi registrado na 23ª Delegacia de Lauro de Freitas
Crime foi registrado na 23ª Delegacia de Lauro de Freitas - Foto: Arquivo pessoal

Após isso, ela procurou o professor de Direito Penal para contar o caso e foi orientada a procurar ajuda e registrar ocorrência na Polícia Civil. O caso foi registrado na 23ª Delegacia Territorial de Lauro de Freitas.

Além disso, ela passou por exame de corpo de delito e atendimento hospitalar. A advogada revelou que no exame do Instituo Médico Legal (IML) foi detectado sêmen do advogado em seu corpo.

"No exame de corpo de delito deu que existia sêmen no meu canal vaginal. Ele foi intimado diversas vezes para apresentar o DNA, mas não respondia. Então, o Ministério Público conseguiu um mandado de busca e apreensão, foram no escritório dele, conseguiram recolher algum objeto, testaram o DNA e comprovaram que era compatível com o sêmen que estava no meu corpo", explica Marcela.

Processo ainda não tem sentença

O caso deu origem à ação penal nº 0500285-58.2020.8.05.0150, que tramita na 1ª Vara Criminal de Lauro de Freitas e está sob segredo de Justiça.

Silvio Nei chegou a ser preso e, segundo Marcela, no momento da prisão, ofereceu dinheiro aos policiais para não ser conduzido. Ela sustenta que o advogado tem agido para atrasar o andamento do processo.

Inclusive, aponta que sucessivos questionamentos processuais têm contribuído para prolongar o andamento do caso.

Entre as questões recentes está uma discussão sobre a imparcialidade da juíza Antônia Faleiros, responsável pelo processo. Em junho de 2025, a magistrada rejeitou a exceção de impedimento apresentada pela defesa e encaminhou a questão ao TJ/ BA.

Em dezembro daquele ano, a Seção Criminal do TJ/ BA decidiu, por unanimidade, reconhecer o impedimento superveniente da magistrada e determinou que o processo fosse encaminhado ao substituto legal.

Conforme o acórdão, a decisão levou em consideração circunstâncias envolvendo a filha da juíza, Cinthia Faleiros Santos, então ligada à Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Subseção Lauro de Freitas, na Bahia, e sua relação com Marcela.

O tribunal, contudo, estabeleceu a preservação dos atos de instrução já realizados. A decisão não representou absolvição do acusado, nem encerrou a ação penal.

A defesa de Silvio recorreu da decisão e busca, entre outros pedidos, a anulação de atos processuais. Em contrarrazões apresentadas em julho de 2026, a defesa de Marcela pediu a manutenção da decisão do Tribunal de Justiça da Bahia e afirmou que o recurso tenta rediscutir provas e atrasar o processo.

Impacto emocional e pessoal

A advogada afirma que o crime provocou impactos profundos em sua vida pessoal e profissional. Ela diz fazer acompanhamento psicológico e psiquiátrico e relata dificuldades para dormir.

"É frustrante, é doloroso, atualmente eu faço acompanhamento psicológico, psiquiátrico. Tomo de oito a nove remédios por dia, inclusive, remédios para dormir, porque eu tenho um pesadelo sempre com essa situação", explica.

Marcela completa dizendo que “é uma dualidade muito grande ser advogada e ser a vítima, porque eu entendo como o processo deveria seguir, mas como ele não é seguido no meu caso, é como se eu fosse a ré do meu próprio processo”.

Ela também afirma ter se afastado de atividades na OAB por questões que, segundo seu relato, acabaram sendo levadas ao processo.

Ao ser questionada sobre o motivo de ter decido se expor publicamente, Marcela afirmou que, além de buscar justiça, também pretende incentivar outras possíveis vítimas de Silvio Nei a denunciá-lo.

“Eu sempre digo para as minhas clientes que denunciar, você tem a certeza da Justiça. Mas, eu não consigo ver isso no meu processo”, finaliza a advogada. O processo permanece em tramitação, sem sentença definitiva sobre as acusações

Advogado fala com exclusividade

Procurado pela reportagem, Silvio Nei Oliveira da Silveira falou com exclusividade ao A TARDE e afirmou que não pode apresentar detalhes da defesa porque o processo tramita sob segredo de Justiça. “Todos os fatos noticiados dizem respeito a um processo que tem segredo de justiça”, afirma.

Silveira afirmou que atua na própria defesa, ao lado de seu sócio, e que uma manifestação pública sobre provas e teses poderia trazer consequências processuais.

“Eu tenho uma porção de provas que demonstram por que o processo não está parado. Ele está andando e com muitas movimentações e muitas páginas e muitos atos”, esclarece o advogado.

Silvio Nei também negou a alegação de que teria oferecido dinheiro a policiais durante sua prisão. “A verdade está dentro do processo”, afirma ele, ao dizer que é casado e pai de duas filhas, de 22 e 14 anos.

O advogado disse ainda que pretende apresentar uma nota formal de esclarecimento após uma movimentação processual pendente, que deu entrada nesta terça-feira, 1º setembro, após saber que o caso havia sido noticiado em alguns veículos de comunicação de Salvador.

"Nunca tive uma uma pontuação criminal antes na minha vida, de nenhuma natureza. Então, cheguei a 43 anos sem ela. Judicialmente, criminalmente é o primeiro processo que eu tenho. Tive processo de divórcio, de alimentos, como qualquer ser humano, processo contra empresas, cobrança de empresa, mas, criminalmente, essa é a primeira pontuação com 43 anos e exercido a profissão de advogado", defendeu-se.

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Órgãos citados

O A TARDE procurou o Tribunal de Justiça da Bahia e o órgão de pronunciou por meio de nota.

"Informamos que o processo mencionado tramita em segredo de justiça. Por essa razão, o Tribunal de Justiça não se manifesta sobre o caso, cujo acesso aos autos é restrito às partes, aos advogados e aos órgãos competentes. Esclarecimentos adicionais devem ser solicitados ao Ministério Público do Estado da Bahia ou à delegacia responsável pelas investigações, respeitados os limites legais".

O Ministério Público da Bahia também foi contatado. Mas, até a publicação dessa reportagem, não havia de manifestado.

Já a A Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional Bahia esclareceu, também através de nota, que os processos ético-disciplinares submetidos ao Tribunal de Ética e Disciplina (TED) tramitam sob sigilo, conforme estabelece o Estatuto da Advocacia.

E, por esse motivo, a instituição e suas subseções não podem fornecer informações ou se manifestar sobre representações, investigações ou julgamentos que ainda não tenham sido definitivamente concluídos no âmbito do TED.

A reportagem também procurou a Polícia Civil, mas não obteve resposta sobre a existência de inquérito policial em andamento.

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Advogada agredida advogado preso crime sexual estupro

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