EMPREENDEDORISMO CRIMINOSO
Negócios do crime: facções constroem impérios com atividades ilegais
Organizações criminosas diversificam atividades e expandem seus negócios

Por Andrêzza Moura

No Ceará, facções criminosas têm transformado o crime em um império empresarial paralelo, diversificando suas fontes de renda para além do tráfico de drogas. Elas atuam em serviços de internet, loterias, apostas, golpes virtuais, bebidas e cigarros falsificados, combustíveis e até cobrança de taxas de funcionamento de comércios, usando violência e monopólio territorial para ampliar lucros e controlar moradores e empresários.
Documentos obtidos pelo G1 mostram que essa estratégia de diversificação tem sido decisiva para aumentar receitas, reduzir a dependência do tráfico de drogas e consolidar monopólios em territórios estratégicos. Somente em 2025, criminosos tentaram impor controle sobre a venda de água de coco, na Avenida Beira-Mar, principal ponto turístico de Fortaleza, obrigando ambulantes a comprar produtos de depósitos ligados à facção sob ameaça de morte.

Segundo o professor Fillipe Azevedo Rodrigues, coordenador do Grupo de Pesquisa em Direito e Economia do Crime da UFRN, “as organizações criminosas seguem a lógica do mercado legal: diversificam investimentos para reduzir riscos e maximizar lucros”. A prática lembra a atuação de milícias no Rio de Janeiro, que buscam monopólio sobre serviços e produtos para controlar preços e territórios.
O Comando Vermelho (CV) elevou o conceito de monopólio a outro nível, atacando provedores de internet em Fortaleza, Caucaia, São Gonçalo do Amarante e Caridade. Carros foram queimados, cabos cortados e servidores destruídos. Empresários foram obrigados a pagar R$ 20 por cliente ou enfrentar represálias.
Guardiões do Estado
Inspirada pela tática do CV, a facção cearense Guardiões do Estado (GDE) chegou a ensaiar a abertura de uma provedora própria, mas o projeto não avançou. Ao enfrentar perdas territoriais e crise financeira, em setembro último, a GDE se uniu ao Terceiro Comando Puro (TCP), do Rio de Janeiro.
A união não só fortaleceu o tráfico de drogas, mas também permitiu a exploração de loterias, apostas e máquinas de jogos regulamentados, cobrando taxas de funcionamento e “aluguel” de comerciantes locais.
As investigações revelam um sistema interno sofisticado: membros pagam caixinhas, cumprem cotas de venda de drogas “fiadas” e podem ser multados ou executados por descumprimento. O “geral da caixinha” e o “geral da biqueira” são responsáveis pela arrecadação, enquanto o “punição” aplica sanções severas. Multas podem chegar a R$ 1.500 e, em alguns casos, a desobediência custa a vida.

Crimes como extorsão e homicídios continuam. Em abril de 2025, comerciantes do Centro de Fortaleza denunciaram cobrança de até R$ 30 mil para autorizar o funcionamento de lojas. Em agosto, Alexandre Roger Lopes, de 23 anos, foi morto em Itapajé após não pagar o valor exigido para manter seu espetinho. O caso revelou uma rede de extorsão organizada pelo chefe local do CV, Misael Negreiro Pinto, o Bel.
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Especialistas apontam que a diversificação das facções cria uma sociedade paralela, monopolizando serviços e produtos e impondo regras à população, funcionando como um verdadeiro “Estado alternativo”. No Ceará, o crime organizado não se limita mais às ruas: ele invade negócios, serviços públicos e até atividades legais, mostrando que a luta contra essas facções exige ações complexas, que vão além das operações policiais tradicionais.
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