
As empresas de apostas esportivas ganharam espaço no futebol brasileiro ao mesmo tempo em que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma ofensiva contra o setor. Nesta quarta-feira, 23, Lula afirmou que pretende acabar com as bets e disse que os clubes precisarão encontrar outras formas de financiamento.
A declaração ocorre em meio à discussão, dentro do governo, sobre uma possível Medida Provisória (MP), que pode ser assinada ainda nesta sexta-feira, 25, em São Paulo, para restringir as plataformas. Enquanto a equipe do Executivo avalia o formato da medida, as empresas de apostas já ocupam uma posição relevante na publicidade de clubes das Séries A e B.
Na Série A, aparecem entre os patrocinadores listados empresas como H2Bet, VBet, Betnacional, Esportes da Sorte, Betano, Superbet, Pitaco, Sportingbet, VaideBet, NoviBet e Bet7K. Na Série B, a relação inclui BetBra, Betnacional, Blaze, 1PRA1, Esportes da Sorte, Bolsa de Aposta, Viva Sorte e Pagol.bet.

A presença do setor também pode ser dimensionada pelo mercado regulado. Segundo o levantamento baseado no registro oficial da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), existem 85 empresas operadoras autorizadas, responsáveis por 185 domínios ativos e outros três endereços ainda a definir.
A consolidação reúne autorizações e portarias emitidas entre 30 de dezembro de 2024 e 15 de julho de 2026.
Lula diz que pretende acabar com as bets
Durante um ato de campanha no Rio de Janeiro com artistas, Lula afirmou que pretende encerrar as plataformas de apostas e relacionou a medida à preocupação com a influência dos algoritmos sobre os jovens.
Ao responder à pressão de dirigentes do futebol contrários a restrições ao setor, o presidente afirmou:
"Essa não é uma guerra, é uma decisão"
"A minha preocupação é que hoje tem uma parte da juventude atrelada aos algoritmos. E se a gente não fizer essa luta, os algoritmos vão ganhar. Eu não tenho nenhum problema em dizer. Eu terei o imenso prazer de acabar com as bets".
Na sequência, Lula também afirmou:
"Em nome da boa política, em nome da sociedade brasileira que a gente vai acabar com isso e os times que aprendam a viver sem lavagem de dinheiro. É isso. Vai ser assim. E isso vai ser bom para a juventude".
A declaração foi dada no mesmo dia em que o presidente reuniu integrantes do governo para discutir medidas de restrição às apostas.

Participaram do encontro os ministros Dario Durigan, da Fazenda; Miriam Belchior, da Casa Civil; Bruno Moretti, do Orçamento e Planejamento; Wellington César, da Justiça e Segurança Pública; Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação; e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
A reunião, segundo integrantes do governo que participaram do encontro no Palácio da Alvorada, não foi conclusiva.
Governo avalia alcance da medida
Embora Lula tenha sinalizado que deseja anunciar o fim das bets, ainda existe uma divisão dentro da equipe do governo sobre o alcance da medida.
Uma das possibilidades discutidas é a proibição total das apostas. Outra alternativa seria adotar restrições específicas, como o veto à publicidade das plataformas e a proibição dos cassinos virtuais, incluindo o chamado "Jogo do Tigrinho".

A mudança vem sendo desenhada por meio de uma Medida Provisória. Órgãos do Executivo já organizam internamente ações considerando a possibilidade de publicação da MP a qualquer momento.
O debate sobre o tema ocorre há algumas semanas e ganhou força nos últimos dias, com reuniões entre ministros para definir o formato da medida e tentar evitar questionamentos jurídicos após sua implementação.
75% defendem proibição das apostas, diz pesquisa
A discussão ocorre em um momento em que a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de setembro de 2026 aponta apoio majoritário à proibição das apostas online.
Segundo o levantamento, 75% dos entrevistados concordam que as bets deveriam ser proibidas, sendo 71% que concordam totalmente e 4% que concordam parcialmente. Outros 17% discordam da proibição.
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O percentual representa uma alta em relação à pesquisa de abril de 2026, quando 73% concordavam com o fim das plataformas e 21% discordavam.
A pesquisa também apontou uma percepção predominantemente negativa sobre os efeitos das apostas na sociedade. Ao todo, 59,9% disseram que as bets trazem somente prejuízos, enquanto 28,6% avaliaram que trazem mais prejuízos. Somadas, as duas respostas representam 88,5%.
No sentido contrário, 0,7% apontaram somente benefícios e 0,2% disseram que as apostas trazem mais benefícios.
Publicidade também entra no debate
A publicidade das plataformas aparece entre os pontos que concentram maior apoio dos entrevistados.
De acordo com o levantamento, 79% concordam que a publicidade das bets deveria ser limitada, sendo 73% totalmente favoráveis e 6% parcialmente favoráveis. Outros 14% discordam.

A pesquisa ainda aponta que 88% dos entrevistados discordam da ideia de que apostas possam ser utilizadas como forma de complemento de renda ou investimento. Apenas 4% concordam com essa afirmação.
Outro dado mostra que 66% consideram que menores de idade têm fácil acesso às plataformas, enquanto 27% discordam.
Futebol reage às restrições
A possibilidade de mudança no mercado também provocou reação dos clubes e federações.
Na semana passada, clubes divulgaram um manifesto conjunto em defesa do mercado regulado de apostas no Brasil. O documento foi apresentado como reação à possibilidade de o governo editar uma Medida Provisória para proibir os jogos de cassino on-line.
Na manifestação, os clubes afirmam que “o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte” e destacam que os recursos também chegam a equipes de menor expressão, divisões de acesso e competições com menor exposição comercial.

O posicionamento evidencia o tamanho do espaço conquistado pelas bets no futebol brasileiro: enquanto o governo discute medidas que podem reduzir ou encerrar a atuação das plataformas, clubes das principais divisões do país têm empresas do setor entre seus patrocinadores.
O impasse, portanto, envolve não apenas o futuro das plataformas de apostas, mas também uma fonte de recursos que passou a fazer parte da estrutura comercial de diferentes equipes do futebol brasileiro.
Bets ocupam espaço nas camisas dos clubes
A força das plataformas no futebol pode ser observada diretamente nos uniformes dos clubes. Entre as equipes das Séries A e B listadas no levantamento, casas de apostas aparecem como patrocinadoras de diversas agremiações.
Na Série A, os clubes e respectivas bets são:
- Atlético-MG — H2Bet
- Botafogo — VBet
- Cruzeiro — Betnacional
- Corinthians — Esportes da Sorte
- Chapecoense — ZeroUm
- Flamengo — Betano
- Fluminense — Superbet
- Grêmio — Pitaco
- Palmeiras — Sportingbet
- Remo — VaideBet
- Santos — NoviBet
- São Paulo — Superbet
- Vasco — Sportingbet
- Vitória — Bet7K
Na Série B, a lista enviada aponta:
- América-MG — BetBra
- Athletic — Betnacional
- Atlético-GO — Blaze
- Avaí — 1PRA1
- Ceará — Esportes da Sorte
- CRB — Bolsa de Aposta
- Goiás — Viva Sorte
- Náutico — Esportes da Sorte
- Novorizontino — Pagol.bet
A relação mostra a presença de diferentes marcas autorizadas entre os patrocinadores das equipes, incluindo empresas que aparecem em mais de um clube ou divisão.
Em 2026, 14 dos 20 clubes da Série A têm casas de apostas como patrocinadoras máster de suas camisas. O montante total pago por essas empresas aos clubes é estimado em cerca de R$ 1,1 bilhão, valor semelhante ao registrado na temporada anterior.
Apesar do volume, os contratos não representam a maior parte das receitas dos clubes.
Levantamento citado no material aponta que nenhum acordo com uma casa de apostas representa mais de 13% do orçamento de um clube da Série A. Na primeira divisão, os valores provenientes dos patrocínios de bets correspondem a aproximadamente 7% das receitas.
Para chegar aos números, foram consideradas as receitas brutas apresentadas pelos clubes em seus orçamentos de 2025 e os valores fixos acertados nos contratos com as casas de apostas, sem considerar eventuais bônus contratuais.
Flamengo tem maior contrato
Entre os clubes analisados, o Flamengo aparece como aquele que tem a maior participação relativa de uma patrocinadora máster em seu orçamento.
Ao mesmo tempo, o clube também possui o maior contrato de patrocínio da história do futebol brasileiro: a Betano paga R$ 268,5 milhões por temporada ao Flamengo.

O valor corresponde a 12,85% da receita bruta registrada pelo clube em 2025, que chegou a R$ 2,08 bilhões.
O caso do Flamengo ajuda a dimensionar a relação entre os clubes e as empresas de apostas: mesmo o maior contrato do setor, segundo os dados apresentados, representa uma parcela inferior a 13% do faturamento anual do clube.
Ludopatia pode transformar aposta em dependência
Por trás da expansão das apostas, existe também uma discussão sobre saúde e comportamento. A ludopatia, ou transtorno do jogo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma condição relacionada ao comportamento de apostar de forma persistente e difícil de controlar. No Brasil, a condição é identificada pelos códigos CID-10 F63.0, referente ao jogo patológico, e Z72.6, relacionado à mania de jogo e apostas.
O problema pode começar com uma aposta ocasional, encarada como entretenimento, mas evoluir para um padrão de comportamento no qual a pessoa passa a dedicar cada vez mais tempo e dinheiro ao jogo. Entre os sinais de alerta estão a necessidade de aumentar os valores apostados, tentativas frustradas de parar ou reduzir as apostas, irritação quando não consegue jogar e a busca por novas apostas para tentar recuperar dinheiro perdido.
A compulsão também pode levar a consequências financeiras e pessoais. Dívidas, empréstimos, ocultação do hábito de familiares e problemas em relacionamentos ou no trabalho estão entre situações associadas ao comportamento problemático. Outro sinal apontado por especialistas é quando a pessoa passa a apostar para escapar de sentimentos como ansiedade, culpa ou desamparo.

Com as plataformas digitais, o acesso às apostas pode ocorrer diretamente pelo celular, em qualquer momento. Nesse contexto, a facilidade de apostar pode fazer com que um comportamento inicialmente recreativo se torne mais frequente e difícil de controlar para pessoas suscetíveis ao transtorno.
A ludopatia está relacionada ao chamado sistema de recompensa do cérebro. A expectativa e a experiência associadas ao jogo podem estimular mecanismos ligados à sensação de prazer e satisfação, contribuindo para a repetição do comportamento. O ponto central, porém, é que o problema não está simplesmente em apostar, mas na perda de controle sobre o ato de jogar e nas consequências provocadas por esse comportamento.



