MOMENTO DE CAUTELA
Especialista aponta caminhos para o Brasil após prisão de Maduro
Portal A Tarde conversou com o cientista político João Vitor Vilas Boas

Por Ane Catarine

A operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na prisão do líder Nicolás Maduro, mexe com o cenário geopolítico da América Latina e coloca o Brasil diante de desafios diplomáticos, humanitários e políticos internos.
Embora o país comandado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seja um dos principais atores da América do Sul e historicamente atue como mediador em crises regionais, a avaliação do cientista político João Vitor Vilas Boas é de que o governo brasileiro precisa pregar cautela neste momento para não incorrer na contradição de condenar o ataque e “defender uma ditadura em colapso”.
Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, o especialista afirmou que o caminho mais equilibrado a ser seguido pelo Brasil passa pela defesa do diálogo entre a Venezuela e Washington.
Segundo ele, essa postura ajuda a preservar princípios históricos da diplomacia nacional, como a defesa da soberania, da não intervenção e da solução pacífica de conflitos, sem romper canais com os Estados Unidos.
O Brasil tem um desafio diplomático. O governo brasileiro precisa condenar a ação estrangeira sem cair na armadilha de defender uma ditadura em colapso, até porque o próprio Brasil não reconheceu as eleições venezuelanas de 2024. A postura mais inteligente passa por solidariedade explícita ao povo venezuelano, defesa de uma solução pacífica e preservação do diálogo com Washington, especialmente após o esforço diplomático recente para recompor relações comerciais e superar distorções herdadas da era Donald Trump.
Interesses econômicos
Seguindo a mesma linha de outros especialistas consultados pelo Portal A TARDE, João Vitor Vilas Boas afirmou que não há legitimidade na ação militar promovida pelo governo de Donald Trump contra o governo venezuelano.
“Do ponto de vista do direito internacional, qualquer intervenção militar estrangeira em território soberano é ilegítima, salvo em duas hipóteses muito específicas: legítima defesa ou autorização expressa do Conselho de Segurança da ONU. Nenhuma dessas condições foi observada no episódio envolvendo Nicolás Maduro”, afirmou.
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Além disso, o cientista político rechaçou os fundamentos do discurso de combate ao narcoterrorismo endossado pelo republicano como principal justificativa para ocupar território venezuelano e executar a ofensiva militar.
Para ele, o governo da Venezuela sofre pressão de interesses econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos.
A retórica de combate ao narcoterrorismo serve mais como justificativa instrumental do que como fundamento legal consistente, especialmente diante do histórico interesse estratégico dos Estados Unidos no petróleo venezuelano. No discurso de pronunciamento, Trump fez questão de afirmar que as ‘gigantescas companhias petrolíferas dos Estados Unidos vão entrar e gastar bilhões de dólares’ na infraestrutura petrolífera venezuelana, completou
Regime venezuelano não é inocente
Apesar da ilegitimidade do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, João Vitor pondera que o regime de Maduro não pode ser tratado como vítima inocente.
O especialista lembrou que o líder chavista governou o país por quase 13 anos, desde que assumiu interinamente após a morte de Hugo Chávez, em 2013, e atualmente ocupava o poder de forma inconstitucional.
“Todo esse contexto não transforma o regime venezuelano em vítima inocente. O bolivarianismo no poder há anos promove um processo sistemático de erosão democrática, com violações de direitos humanos, instrumentalização do Judiciário e esvaziamento do processo eleitoral sob o discurso de proteção do povo. Esse tipo de regime frequentemente termina de forma abrupta e trágica”, concluiu.
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