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Renata Feijó e Camila Maciel são mulheres com cargos de liderança no setor de energia

FORA DA CURVA

Nordestinas assumem comando e transformam o setor de energia no Brasil

Camila Maciel e Renata Feijó se destacam no mercado, onde apenas 1 em cada 5 cargos de alta gestão são ocupado por mulheres

Renata Feijó e Camila Maciel são mulheres com cargos de liderança no setor de energia - Foto Tati Nolla | Divulgação | Editado com uso de IA

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Carla Melo

Por Carla Melo

08/03/2026 - 9:00 h

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Uma engenheira e uma advogada: o que duas profissionais com áreas de atuação tão divergentes poderiam ter em comum com o setor de energia? A resposta não é imediata e muito menos fácil, assim como o cenário de desigualdade que cerca o mercado de trabalho no Brasil.

No setor de energia, mulheres ocupam menos de 1 em cada 4 empregos gerados no mercado. Já em cargos de alta gestão, mulheres ocupam apenas 1 em cada 5 vagas, de acordo com o estudo “Integrando Perspectivas de Gênero nas Políticas Energéticas do G20”, desenvolvido pelo Instituto E+ Transição Energética, no âmbito do GT JIET da Parceria Energética, em 2025.

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Na contramão desse cenário, estão Camila Maciel e Renata Feijó. Ambas foram as responsáveis por romper a curva de um setor altamente ocupado por homens e do panorama pobreza energética o qual mulheres são as mais afetadas

Nordestinas da Bahia e do Rio Grande do Norte, respectivamente, elas ocupam posições estratégicas no setor e, para além disso, incentivam outras mulheres através de iniciativas sociais.

Outra coisa que as une é o incentivo à educação. Ambas tiveram apoio desmedido dos seus pais para ir além.

Engenheira para elas

Na família de Camila Maciel, por exemplo, os estudos foram um dos principais pilares. Nascida no município de Senhor do Bonfim, no centro norte da Bahia, a adolescente sonhadora recebeu incentivo incessante dos pais para continuar estudando mesmo quando já tinha se formado.

Não demorou muito para que ela entendesse o que precisava e descobrisse o que queria. Química, matemática e física foram a sua paixão no ensino médio, e anos depois foram a razão para que ela se tornasse a primeira engenheira da família.

“Não me vejo em outra profissão, sou apaixonada pelo que faço. Trabalho na área de construção, a emoção de tirar projetos do papel e energizar uma subestação é muito gratificante. Porém nunca romantizei minha carreira, principalmente no começo, precisei quebrar muitas barreiras para conquistar o meu espaço”, disse ela.

O primeiro baque da desigualdade, a qual ela se refere, veio quando ela foi aprovada na Universidade Federal de Campina Grande (PB). Ela era uma das poucas mulheres no curso de engenharia elétrica, o que escancarou o cenário marcado por estereótipos de gênero, falta de incentivo na base escolar e ambiente de trabalho predominantemente masculino.

O mesmo cenário foi encontrado quando ela decidiu entrar no curso de mestrado e em as outras diversas portas que se abriram para a engenheira.

Se eu tivesse desistido na primeira barreira, não teria construído a carreira que tanto me orgulho
Camila Maciel - engenheira elétrica e criadora do Elas de Botina

A primeira obra da engenheira foi conquistada através da sua mãe, a qual ela considera como a maior divulgadora do seu trabalho. “Minha mãe sempre falava com orgulho que a filha dela era engenheira, e um dia ouviram ela falando de mim, e disseram que estavam precisando de uma engenheira de obras, a minha mãe falou e vieram falar comigo”, relembrou a profissional.

O trabalho era para liderar a obra de uma subestação em Porto Velho, em Rondônia, responsável por gerar energia para o Sudeste. Nessa obra, Camila precisou liderar uma equipe composto por mais de 100 homens.

“O começo é muito difícil para todas as mulheres na área, mas essa foi a porta de entrada para oportunidades na minha vida”, continuou ela.

Liderança na transmissão de energia elétrica

Atualmente, Camila Maciel é engenheira de equipamentos High Voltage Direct Current (HVDC), ou Corrente Contínua em Alta Tensão, em português, na State Grid. Só pelo nome já parece ser um bicho de duas cabeças, mas não para ela.

O dispositivo é uma facilitadora altamente eficiente para transmitir grandes quantidades de eletricidade a longas distâncias, integrar energias renováveis, e interligar redes, abrindo caminho a novas soluções de transmissão sustentáveis. Ou seja, é um sistema de transmissão de energia elétrica que combate um dos grandes gargalos do setor quanto ao escoamento de energias como a energia solar e eólica.

Camila Maciel é engenheira de equipamentos High Voltage Direct Current (HVDC)
Camila Maciel é engenheira de equipamentos High Voltage Direct Current (HVDC) | Foto: Divulgação

Ela trabalha no Bipolo Nordeste I, Graça Aranha-Silvânia Transmissora de Energia (GATE), instalada no Maranhão. É o maior investimento da história do setor de transmissão elétrico brasileiro, com previsão de R$ 18 bilhões em aportes, capacidade de 5GW em 800kVcc.

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O GATE escoa um grande volume de energia renovável (solar e eólica) produzido no Nordeste para os grandes centros de consumo, principalmente no Sudeste. Toda essa energia excedente é produzida no Maranhão para Goiás.

Na subestação, Camila Maciel, conduz a definição dos equipamentos e eletromecânica das subestações conversoras do projeto da linha de transmissão em corrente contínua.

“Não existe geração sem transmissão de energia. Acompanho desde os testes de fábrica com os fornecedores até os de campo. O trabalho é muito além das atividades dentro do escritório. Tenho que pensar nisso tudo, ser meticulosa, pois essa concessão vai durar três décadas. São os desafios que vivo no dia a dia. Não só pela importância do projeto, mas também pela complexidade e longevidade. Em breve começarão os testes em campo, as energização (operação com escoamento de energia elétrica na linha de transmissão)”, explicou a engenheira.

Mulheres inspirando mulheres

Além dos equipamentos, máquinas e muitos números, Camila Maciel também lidera um projeto para incentivar outras meninas na área de engenharia elétrica, o Elas de Botina (@elasdebotina). A engenheira publicou um livro infantil, ‘As Descobertas de Carol no Mundo da Engenharia’, com o objetivo de despertar já na infância o desejo das meninas de 4 a 12 anos de estudar a área.

“Com o Elas de Botina percebi que tinha que ir além e trabalhar a infância, encorajando as meninas a seguirem na engenharia. O perfil me mostrou que elas não tinham apoio da família. Se queremos ter mais mulheres na engenharia, é preciso começar com o apoio em cas. Uma engenheira nasce em um lar que apoia as escolhas de uma menina: o despertar pela engenharia, ciências e tecnologia começa na infância.

“‘As Descobertas de Carol no Mundo da Engenharia’ é muito mais do que um livro, é um mundo de possibilidades novas que se abrem a cada página lida”, conta ela. Camila tem ainda o sonho de um dia conhecer uma engenheira que despertou o interesse pela engenharia através do seu trabalho no universo infantil e acredita no poder transformador dos livros.

A engenheira é ainda embaixadora do STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) Women Congress no Brasil, um projeto global para acelerar a inclusão de meninas e mulheres no STEM.

Mulheres são minoria entre formados nas carreiras de STEM: no G20, a participação feminina nas áreas de STEM é de 34%, impulsionada principalmente pelos países do Sul Global, que alcançam 37%, enquanto o Norte Global tem uma média de 31%. No Brasil, a taxa de participação feminina entre graduados em STEM é de aproximadamente 37%.

Mulheres na energia solar

Ainda no setor de energia, está a história de Renata Feijó, advogada de formação e nordestina de nascença. Ela, que sempre se considerou sonhadora, decidiu entrar no curso de Direito pensando em combater a corrupção no Brasil.

Seus planos incluíam entrar em um concurso público e atuar no funcionalismo público. Essa ideia, entretanto, desmoronou quando seu professor, a desincentivou a atuar na área e afirmou que ela seria muito frustrada na carreira pública.

Achei estranho na hora, não foi aquilo que eu queria escutar, mas depois eu fiquei refletindo e eu fiquei pensando: “realmente eu gosto muito de construir as coisas, e tem coisas sobre mim que eu que eu gosto muito, e que foi enraizada pelos meus pais
Renata Feijó - advogada e fundadora da Liora Energia

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É aí, então, que os incentivos aos estudos, através dos pais, entram no jogo. Ela decidiu ouvir os conselhos dos seus pais e se mudou para São Paulo para fazer a sua pós-graduação. Ela começou a trabalhar em várias áreas, principalmente a de tecnologia.

“Eu comecei a ver um pouco mais sobre a empresa de tecnologia, em 2013, que na época eram muito poucas e ainda continua sendo uma aposta”, continuou ela.

Renata começou a se destacar tanto na atuação jurídica, mas também tecnológica. Participou, desde o momento da confecção das regras de mercado, abertura do mercado até o processo de integração. As experiência através dessas empresas foram aumentando e o seu networking também, até que isso lhe deu um start para empreender.

“Eu, o Márcio e o Bruno, que são os meus sócios, sentamos e começamos a pesquisar o mercado. E aí a gente se deparou com esse momento do Brasil que também está passando por essa abertura de mercado na energia com várias mudanças regulatórias. Foi quando começou a Liora, no meio de 2024 e lançamos a nossa operação há 6 meses”, contou ela.

Renata Feijó
Renata Feijó | Foto: Tati Nolla | Divulgação

Além do desconto na conta de energia

A empresa atua diretamente no fornecimento de energia solar para o consumidor final, mas também com empresas de serviços de energia solar, focando em PMEs e residências de auto-ticket. A ideia de tirar do papel um projeto que impactasse positivamente o cliente, além dos descontos na conta de luz, trouxe junto a ideia de fintechzação da energia, ou seja, trazendo uma ideia inovadora para aquilo que já existe.

Na Liora é possível que o cliente escolha como necessariamente será esse benefício, seja através de financiamento de um cashback, ou de juros reduzidos, ofertas que podem ser até maiores que os próprios descontos na conta de luz.

“Esse foi o segundo insight que permitiu a gente olhar e entender que o valor da energia vai muito além do que a boa negociação que a gente faz com com a usina ou a boa negociação, o bom processo de venda que a gente faz com com o consumidor. A junção dessa construção da infraestrutura que opera a energia, mas transforma essa energia em dinheiro e finanças, é algo muito poderoso, porque você alinha um incentivo econômico com o cliente da ponta”, continuou Renata.

Na Bahia, por exemplo, a Liora tem uma parceria com a Telecom na Bahia, que além de oferecer os descontos direto na conta de energia, ainda oferece a possibilidade de fazer o upgrade do pacote de dados

Atualmente, a empresa atua na Bahia, no Rio Grande do Norte, no interior de São Paulo e abrirá uma unidade no Ceará, em abril. Outras duas praças no Nordeste e mais uma praça no sul, sudeste até o meio do ano estão sendo negociadas.

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