CATEGORIA CRÔNICA
13 anos depois, mãe perde o medo, vence preconceitos e conquista 1º lugar em concurso de A TARDE
Aluna do EJA emociona com crônica sobre a periferia e vence Concurso Jovem Jornalista 2026 na Bahia


A história da literatura e do jornalismo baiano ganhou um novo capítulo de superação na noite desta quarta-feira, 30. Após 13 anos longe das salas de aula, ouvindo de parentes e conhecidos que “não teria futuro” ao vir para a capital baiana, Daniele Cristina Santos Bonfim da Hora, de 33 anos, conquistou o 1º lugar na categoria Crônica do Concurso Cultural Jovem Jornalista 2026, promovido pelo programa A TARDE Educação.
Mãe de três filhos, aluna da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Escola Municipal Cláudio Veiga, na região da Estrada Velha / São Cristóvão, Daniele provou que os sonhos guardados no peito nunca morrem, apenas esperam a hora certa de reacender.
O resgate dos sonhos e a virada de chave
A caminhada de Daniele até o topo do pódio não foi simples. Marcada pelo preconceito e pela estagnação, ela encontrou dentro do próprio lar o empurrão que precisava.
"Minha sogra me motivou a voltar a estudar, ela me chamou para ir junto com ela. Foi o gatilho para eu desenterrar meus sonhos. Eu sempre ouvi de familiares que não seria ninguém, que viria para Salvador e minha vida pararia ali. Mas minha sogra, meu marido e meus filhos sempre me incentivaram", revela a vencedora.
O incentivo dentro de casa encontrou eco na sala de aula. Orientada pela professora Cátia Valentina Góis dos Santos, Daniele reencontrou a confiança necessária para mirar alto. O sonho de criança — cursar psicologia e fundar uma ONG para ajudar pessoas — ganhou nova força a cada aula de redação.
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"O nome que ficou no muro": a dor e a realidade da periferia

A crônica vencedora, intitulada “O nome que ficou no muro”, nasceu do olhar atento e sensível de Daniele no trajeto diário de ônibus pelas periferias de Salvador. Ao observar as pichações em homenagem a jovens que perderam a vida precocemente para a criminalidade, a estudante transformou a dor comunitária em literatura.
"A crônica fala sobre o meu próprio bairro e outros bairros de periferia. Eu vejo da janela do ônibus nomes de jovens que morreram cedo escritos nas paredes. Muitas mães enterram seus filhos e levam esse luto, tendo como única lembrança aquele nome no muro. É uma realidade muito perversa", conta Daniele.
A inspiração para o texto veio acompanhada de dores recentes: a perda de um colega da própria escola, de apenas 16 anos, e a morte de Leonardo, um jovem conhecido do bairro de São Cristóvão a quem a autora dedicou a obra.
Tensão no último segundo: envio às 23h59
Se o tema da crônica foi denso, o bastidor da inscrição foi digno de um roteiro de cinema. O texto que garantiu o iPhone 17 para Daniele e para a professora Cátia Valentina quase não foi enviado a tempo.
"Nós enviamos no último minuto, no último segundo! Eram 23h59 e eu já estava chorando, dizendo 'não vai dar tempo!'. Aí meu marido disse: 'Acalme-se, vai dar tempo'. E deu. Graças a Deus deu tempo e hoje estamos aqui no pódio", comemora, risonha.
Filhos como inspiração de futuro
Se no passado Daniele não teve a oportunidade de concluir os estudos na idade regular, hoje ela busca no exemplo dos próprios filhos a força para seguir em frente.
Sua filha mais velha recentemente conquistou, segundo ela, por esforço próprio e sem cursinhos, uma vaga no IFBA (Instituto Federal da Bahia), e o filho do meio segue o mesmo caminho de dedicação aos livros.
"Meus filhos são minhas maiores inspirações. Eu digo a eles que eu quero ser como eles. Não que eles sejam como eu fui, quando larguei a escola, mas eu quero ser como eles são agora: correr atrás dos meus objetivos."
Com o troféu em mãos e o primeiro lugar garantido, Daniele Cristina prova que a periferia da Bahia é celeiro de potências intelectuais — e que nunca é tarde para reescrever a própria história.
O Concurso Cultural Jovem Jornalista (CCJJ) 2026 é uma realização do Programa A TARDE Educação, do Grupo A TARDE, e conta com o apoio da Secretaria da Educação do Estado da Bahia (SEC/BA), da Companhia de Gás da Bahia (Bahiagás), da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), do Departamento Estadual de Trânsito da Bahia (Detran-BA) e da Rio Energy. A iniciativa tem patrocínio da Acelen, do SESI, do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) e da Neoenergia Coelba.


