SAÚDE
Fim das bets resolve o vício? Saiba identificar dependência e como buscar ajuda
Procura por tratamento cresceu mais de 600% no SUS


A proibição das plataformas de jogos online e de apostas no Brasil, as populares bets, colocaram em evidência uma questão que vai além do bloqueio do acesso às plataformas: o que fazer com quem já desenvolveu uma relação de dependência?
Com uma alta superior a 600% na procura por tratamento contra a ludopatia no Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde passou a acompanhar os casos relacionados à dependência em apostas, com foco no atendimento e no cuidado com a saúde mental.
Em entrevista ao portal A TARDE, a psicóloga Lavínia Sales afirmou que as mudanças regulatórias e as ferramentas de proteção podem contribuir para reduzir o acesso às plataformas, mas é importante lembrar que bloquear o aplicativo não significa, por si só, tratar a dependência.
Para quem já desenvolveu um padrão problemático, é necessário trabalhar também os fatores psicológicos e comportamentais que mantêm o comportamento
Quais são os sinais de alerta para identifcar o vício em bets?
De acordo com a psicóloga, o principal sinal de alerta não está na quantidade de dinheiro que a pessoa joga, mas sim no espaço que o comportamento passou a ocupar na sua vida.
“Um dos sinais mais importantes é quando a pessoa começa a apostar com mais frequência ou com valores maiores, sente necessidade de recuperar o dinheiro perdido ou percebe que está cada vez mais envolvida mentalmente com o jogo”, relata.
Segundo a especialista, também merecem atenção situações em que a pessoa tenta diminuir ou interromper as apostas, mas não consegue; passa a esconder ou mentir sobre o comportamento; ou utiliza dinheiro destinado a despesas importantes.

Quando a aposta deixa de ser recreativa?
A profissional aponta que um dos comportamentos característicos da dependência é o chamado chasing losses, quando a pessoa volta a apostar com a intenção de recuperar o dinheiro perdido.
Nesse ciclo, a perda deixa de ser apenas financeira e passa a alimentar novas apostas. A pessoa pensa que precisa continuar jogando para recuperar o prejuízo, mas pode acabar ampliando ainda mais as perdas.
“Perdi, então preciso apostar novamente para recuperar”, resume Lavínia, ao explicar a lógica que pode manter o comportamento.
Outro sinal está nas mudanças provocadas pela aposta na rotina, como:
- deixar de realizar atividades importantes;
- perder concentração no trabalho ou nos estudos;
- afastar-se da família;
- alterar o sono;
- utilizar as apostas para lidar com tédio;
- ansiedade ou frustração.
Dependência também afeta a saúde mental?
Os prejuízos não se limitam às finanças. A relação problemática com as apostas pode estar associada a sofrimento psicológico, ansiedade, alterações de humor, irritabilidade, problemas de sono e conflitos familiares.
Lavínia explica que algumas pessoas entram em um ciclo de expectativa, tensão, ganho ou perda, seguido por culpa e tentativa de recuperar o prejuízo. A preocupação constante com dinheiro e com a próxima aposta pode manter a pessoa em estado de tensão.
Outro ponto de atenção é quando a aposta passa a ser utilizada como uma forma de aliviar sentimentos desagradáveis.
Nesse caso, a pessoa não está mais apostando apenas para ganhar, mas para modificar temporariamente aquilo que está sentindo
O sono também pode ser prejudicado pela preocupação com perdas e dívidas, além do uso frequente de aplicativos e da permanência diante das telas durante a noite.
Em situações mais graves, podem aparecer sentimentos de culpa, vergonha, desesperança e isolamento. Por isso, a psicóloga ressalta que a dependência em apostas deve ser compreendida também como uma questão de saúde mental.

Quem está mais vulnerável?
Não existe um único perfil de pessoa que desenvolve dependência em apostas. Segundo Lavínia, qualquer pessoa pode apresentar uma relação problemática com o jogo, especialmente diante da facilidade de acesso às plataformas digitais.
Entre os possíveis fatores de vulnerabilidade estão impulsividade, busca por sensações e dificuldade de regulação emocional. Condições psicológicas também podem aumentar a vulnerabilidade, mas não significam, isoladamente, que uma pessoa desenvolverá dependência.
“Também existem fatores ambientais e contextuais. Situações de estresse financeiro, desemprego, conflitos familiares, perdas importantes, solidão ou períodos de grande sofrimento emocional podem fazer com que a aposta seja percebida como uma possibilidade de solução rápida ou como uma forma de escapar temporariamente de sentimentos desagradáveis”, acrescenta Lavínia.
A estrutura das apostas online também é apontada pela psicóloga como um elemento de atenção. Como as plataformas estão disponíveis praticamente a qualquer momento pelo celular, com facilidade para depósitos e novas apostas, há menos barreiras entre o impulso e o comportamento.
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O que fazer para parar de apostar?
As ferramentas de proteção podem ajudar a reduzir o acesso às plataformas, mas, segundo Lavínia, bloquear o aplicativo não significa, sozinho, tratar a dependência.
"Uma das ferramentas disponíveis atualmente no Brasil é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Ministério da Fazenda, que permite solicitar o bloqueio do acesso às plataformas de apostas autorizadas. A pessoa pode utilizar a própria conta Gov.br e escolher um período determinado ou indeterminado de autoexclusão. O sistema também impede a abertura de novas contas nas plataformas autorizadas durante o período escolhido", explica Lavínia.
A psicóloga também recomenda a criação de barreiras financeiras e comportamentais.
"Dependendo do caso, pode ser necessário reduzir temporariamente o acesso ao crédito, reorganizar as finanças, estabelecer limites de movimentação e contar com uma pessoa de confiança", alerta.
Outro passo é identificar os gatilhos que antecedem a vontade de apostar e desenvolver alternativas para lidar com eles.
Na psicoterapia, esse processo envolve compreender o que aconteceu antes da vontade de apostar, quais pensamentos surgiram, o que a pessoa estava sentindo e quais consequências vieram depois do comportamento.
Lavínia também destaca que uma recaída não deve ser encarada automaticamente como fracasso. O episódio pode indicar que determinado gatilho ainda precisa ser compreendido e trabalhado.
Quando procurar ajuda?
De acordo com Lavínia, não é necessário esperar que a situação chegue ao extremo para buscar atendimento. Um dos principais parâmetros, segundo a psicóloga, é observar se as apostas começaram a interferir nas finanças, no trabalho, nos estudos, no sono, nos relacionamentos ou na saúde emocional.
Também é importante procurar ajuda quando a pessoa percebe que tenta reduzir ou parar, mas não consegue.
No SUS, a porta de entrada pode ser a Unidade Básica de Saúde, com possibilidade de encaminhamento para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), quando houver necessidade de acompanhamento especializado.
Segundo Lavínia, desde 2026 também há oferta de teleatendimento em saúde mental pelo Meu SUS Digital para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares.
Entre as abordagens utilizadas está a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que trabalha os pensamentos e comportamentos que ajudam a manter o ciclo das apostas, além de estratégias para lidar com fissura, impulsividade, prevenção de recaídas, organização da rotina e resolução de problemas.
Para a psicóloga, o tratamento não deve se resumir a dizer para a pessoa simplesmente parar de apostar.
“Mais do que perguntar ‘por que essa pessoa não simplesmente para?’, precisamos compreender o que a aposta passou a representar na vida dela”, afirma.

Onde buscar ajuda
- SUS: a pessoa pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para avaliação e orientação, com possibilidade de encaminhamento para um CAPS, quando necessário.
- Meu SUS Digital: há oferta de teleatendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares.
- Autoexclusão das bets: a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Ministério da Fazenda, permite solicitar o bloqueio do acesso às plataformas de apostas autorizadas por período determinado ou indeterminado.


