INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
IA no serviço público: entenda os riscos da proposta de Flávio
Especialistas em gestão pública e novas tecnologias acreditam em riscos para o setor


Após a repercussão das declarações da equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL) envolvendo a possível suspensão de novos concursos em razão à substituição de vagas de servidores públicos por inteligência artificial, especialistas reagiram negativamente à proposta que pode impactar o setor público brasileiro.
A proposta foi apresentada em entrevista ao podcast G4, em 30 de setembro, e voltou a repercutir nesta segunda-feira, 19, quando a economista tentou justificar suas declarações durante participação no programa Pânico, da Jovem Pan.
“E aí substitui e faz outro concurso pra gente pagar? Ou dá pra ir substituindo por inteligência artificial no tempo?”, questionou ela no G4.
Limitações e riscos com a substituição da IA
Especialistas em gestão pública e novas tecnologias acreditam que, caso seja aplicada, a proposta será acarretada de muitos riscos para o setor público. Para o professor e especialista no contexto da inteligência artificial no setor público, Marcello Chamusca, a maior ameaça com essa troca é a inversão de valores.
“Um governo nada mais é do que um ente de regulação da sociedade que serve para garantir os direitos das pessoas. Na prática, a tecnologia não pode, não deve e jamais pode servir para substituir pessoas. As tecnologias devem estar a serviço das pessoas”, inicia o consultor.
De acordo com o especialista, em entrevista ao Portal A TARDE a inserção da inteligência artificial é fundamental na gestão pública, uma vez que a ferramenta é utilizada para impulsionar a eficiência no trabalho dos servidores e garantir melhores condições de vida “além do trabalho”. Entretanto, a substituição da relação humana no sistema governamental pode ser acompanhada de limitações.
“Obviamente que ter tecnologia de ponta disponível para o governo é altamente desejável. O que não é de jeito nenhum é que essas tecnologias servem para tomar o lugar das pessoas. Não é o caso de analisar o que a tecnologia pode fazer, e sim, o que se pode fazer com a tecnologia”, continuou ele.
Dominador x Dominado: ameaça à ordem social?
Chamusca ressalta que a diferença entre a capacidade da IA com os servidores públicos é a ordem social. Para ele, independente da ferramenta possuir maior capacidade de processamento de memória e avanços tecnológicos, são estas que precisam ser direcionadas por seres humanos, e não ao contrário.
“É que a inteligência artificial está num nível de avanço muito significativo, muito além do que vemos nos aplicativos. O governo pode até usar a IA para levantar possibilidades e tomar decisões com base nessas possibilidades, mas nunca delegar a IA a tomada de decisões, seja lá na instância que for. Acredito que é uma tecnologia que pode nos ajudar muito. Mas, definitivamente, não para substituir pessoas.”, disse o especialista.
Há, de acordo com o professor, um limite gigantesco entre a IA e os servidores, que nem uma substituição, pode ser capaz de ultrapassar: o poder através dos sentimentos, que são fundamentais para diversos setores do poder público, como a área de saúde ou justiça.
“A decisão que a IA vai tomar, vai ser mera estatística, vai tomar por outros critérios. Talvez essa possibilidade está sendo cogitada exatamente porque as pessoas que estão querendo voltar ao poder são pessoas que não viveram na prática a angústia de um povo. O mais triste disso, é ouvir de alguém que quer ser presidente da república, que vai substituir pessoas por IA”, finalizou o profissional.
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A polêmica e os impactos ao Brasil
A coordenadora da área econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Daniella Marques, sugeriu que vagas no funcionalismo público sejam substituídas por inteligência artificial (IA), em vez da realização de novos concursos para repor profissionais que se aposentam.
Após a repercussão negativa do posicionamento, a equipe de campanha e apoiadores defenderam nas redes sociais que a medida traria maior eficiência e fortalecimento de carreiras consideradas essenciais, permitindo melhorar a remuneração dos servidores mantidos.
A proposta abre caminho para uma redução progressiva do funcionalismo público. Em vez de realizar concursos para repor parte dos trabalhadores que se aposentam, o governo transferiu suas atribuições para sistemas automatizados, diminuindo o contingente de servidores ao longo dos anos.
Especialistas em gestão pública, entretanto, apontam que essa decisão não é a solução para o equilíbrio fiscal e que são necessárias reformas mais profundas e estruturantes para gerar um alívio financeiro efetivo.
“Não é a solução. Concordo que se precisa de uma reestruturação, mas é preciso pensar em formas mais funcionais de se pensar o lugar do funcionalismo público, de como os cargos podem ser mais funcionais, de forma que esse funcionário também retorne para o Estado, para a coisa pública, para a máquina pública, de uma maneira eficaz, com ética, com qualidade, mas destruir o lugar dos servidores públicos é absurdo”, explica Naymare Azevedo, especialista em gestão pública, em entrevista ao Portal A TARDE.
O que a proposta de Flávio Bolsonaro sugere sobre concursos públicos?
A proposta sugere a suspensão de novos concursos para cargos públicos, propondo que as funções sejam gradualmente substituídas por inteligência artificial em vez de repor os servidores aposentados.
Quais são os riscos da substituição de servidores por inteligência artificial?
Especialistas alertam que isso pode desumanizar a gestão pública, retirando a capacidade de empatia e tomada de decisões pautadas em sentimentos, o que é essencial em áreas como saúde e justiça.
Inteligência artificial pode realmente substituir servidores públicos?
Não, segundo especialistas. A inteligência artificial deve ser utilizada como uma ferramenta para apoiar os servidores, mas nunca substituí-los, permitindo uma gestão mais eficiente sem eliminar a interação humana.
Como a proposta impacta a eficiência e a qualidade no serviço público?
A proposta é vista como problemática, pois especialistas afirmam que a eficiência não deve vir à custa da desumanização do serviço público e que reformas estruturais mais profundas são necessárias.
Quais seriam alternativas viáveis à ideia de substituir servidores por IA?
Especialistas sugerem reestruturações que valorizem os servidores públicos, promovendo sua capacitação e utilização eficaz no serviço público, sem perder a importância do papel humano na administração.


