ANÁLISE
O Bahia vai para a Libertadores por acidente: a crônica de um time que tem medo de ser grande
Derrota de virada para o Cruzeiro escancara o DNA medroso, erros de Ceni e um elenco sem alma


O torcedor do Bahia que me perdoe, mas o que vimos no Mineirão — na dolorosa derrota de virada por 3 a 2 para o Cruzeiro — não foi apenas um tropeço comum de reta final de Campeonato Brasileiro. Foi a radiografia perfeita de um clube que, mesmo cercado de milhões, de uma SAF gigantesca prometendo comprar a Fonte Nova e erguer CTs milionários, parece caminhar a passos largos para recusar a própria grandeza. Se esse time alcançar a Copa Libertadores, será por puro acidente - mais uma vez -, uma classificação culposa, literal e pateticamente sem a menor intenção de ir.
O placar de 3 a 2 foi um verdadeiro insulto à realidade do que foi o jogo. Poderia ter sido facilmente quatro ou mais para o Cruzeiro, que perdeu gols em série diante de uma verdadeira avenida defensiva. O Bahia tem chance real de ir para o torneio continental? Tem. Mas o que este elenco escancarou em campo é que falta casca grossa, falta brio, falta vergonha na cara e, acima de tudo, sobra um medo crônico de vencer. É um time grande que se acostumou a ser pequeno, que se esconde atrás de um discurso confortável de "projeto de longo prazo" para justificar a mediocridade competitiva. Não dão a mínima para o protagonismo.
O festival de horrores táticos e individuais
Quer um retrato fiel dessa apatia? Olhe para a atuação dantesca de Marcos Victor. O zagueiro improvisado na lateral direita errou absolutamente tudo: tomadas de decisão equivocadas, passes na fogueira, viradas de jogo ridículas e dribles sofridos com facilidade infantil pelos pontas velozes do Cruzeiro. Para coroar a noite catastrófica, com a zaga ruindo e Kanu jogando mal, Ceni o deslocou para o lado esquerdo da defesa. Destro, Marcos Victor tomou um verdadeiro banho de Kaio Jorge e companhia jogando totalmente torto. Foi terrível, indefensável.
E o que dizer do goleiro Ronaldo? Tão elogiado quando ganhou a vaga, nos momentos agudos e decisivos ele simplesmente fraqueja. Falhou feio nos dois gols de Kaio Jorge. No primeiro, a bola passou mansa embaixo dele, lento na queda; no terceiro, um golaço do adversário, é verdade, mas dessa vez se posicionou errado, deu um passo para o lado que não devia e foi facilmente vencido, fora os diversos momentos de insegurança ao longo do jogo. Quem veste a camisa de um time que quer ir à Libertadores isso é inadimissível. Falhou feio, sem álibis.
Enquanto isso, a prancheta de Rogério Ceni entra em parafuso com invenções inadmissíveis. O treinador insiste em transformar o bom atacante Alejo Véliz — que até fez um belo gol de cabeça, mas passou a partida inteira isolado e mal acionado — em um "atacante tático". É a mesma loucura histórica que fizeram com Gabriel Jesus na Seleção: querem que o cara cubra lateral, feche linha de meio e recomponha. Atacante nato está na área para fuzilar, para fazer gol, como bem demonstrou o implacável Kaio Jorge do outro lado. Quer matar as maiores valências de finalização e antecipação do argentino? É só seguir o manual de Ceni.
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Para piorar, o meio de campo virou uma casa da joia quando Ceni resolveu mexer nas peças. Tirou Acevedo — que, convenhamos, está longe de ser o craque que pintam; é um atleta esforçado, mas que vive colecionando cartões e faltas bobas — e colocou o time num ritmo caótico. Acevedo saiu pendurado, dando vaga para as loucuras táticas que abriram o meio-campo tricolor como uma bacia. Do outro lado, Kike Oliveira até achou um golaço (mais na base da sorte que da técnica), mas perdeu um gol feito no início que definiria o jogo. Kike corre os 90 minutos como um motorzinho incansável na lateral, mas como atacante técnico, de tomada de decisão apurada, ele é nulo.
A ilusão de Everton Ribeiro e o conformismo geral
E chegamos ao ponto mais doloroso da noite. O que foi Everton Ribeiro em campo? Sabe aquele senhor de 60 e poucos anos que chega no "baba" da garotada de vinte e poucos, jurando de pés juntos que foi craque na juventude, que jogou na base do Bahia, do Vitória e do Ypiranga, mas que, ao tentar dar dois piques, não consegue se mover? Aí sempre aparece um mais abusado para dizer: "Ô, coroa, valeu aí, mas senta ali no banco, não dá mais para você não".
É exatamente esse o retrato de Everton Ribeiro hoje no Bahia. Todo mundo respeita a sua história linda no futebol brasileiro, mas ele não tem mais físico, intensidade ou ritmo para entregar absolutamente nada em alto nível. É um jogador em ritmo de aposentadoria. Com todo o respeito: valeu, foi bom, adeus, Everton Ribeiro. Jogar mais uma Série A inteira e uma Libertadores em 2027 nesse nível não é mais realidade.
Para completar a tarde trágica, Rodrigo Nestor cometeu um pênalti infantil e sumiu da partida, assim como um Erick apagado. O Bahia teve um controle estéril, fez seu golzinho no início, se acovardou, chamou o adversário para dentro da sua área e permitiu a virada.
O clube tem recursos financeiros históricos, uma torcida apaixonada que apoia em massa, mas joga como se pedisse desculpas por estar no G6. Fica o alerta escancarado para a diretoria: independentemente de como terminar essa temporada e se a vaga vier no sufoco, este elenco precisa de uma faxina profunda, de uma oxigenação drástica de jogadores casca-grossa. O Bahia é grande demais para continuar brincando de ser pequeno.


