BAHIA NO BRASILEIRÃO
Sem Mingo, Bahia de Ceni fica torto em campo e expõe lado esquerdo vulnerável
Vitória sobre o Remo garante vaga no G4, mas escancara lacuna na construção dificuldade de encaixe


A vitória por 2 a 1 sobre o Remo confirmou a excelente fase de resultados do Bahia na Série A do Campeonato Brasileiro. O triunfo garantiu mais três pontos fundamentais na tabela, manteve a impressionante sequência invicta de onze jogos da equipe - sendo quatro vitórias consecutivas - e consolidou o Esquadrão na quarta colocação, dentro da zona de classificação direta para a Copa Libertadores de 2027. No entanto, para além da pontuação celebrada pela nação tricolor, o confronto na Arena Fonte Nova deixou exposta uma ferida tática que promete desafiar a comissão técnica na reta final da temporada: a falta que Ramos Mingo faz ao sistema estrutural de Rogério Ceni.
A ida do zagueiro para o América do México desarmou a mecânica que garantia o equilíbrio entre a sustentação defensiva e a criação ofensiva do time. No modelo tradicional em 4-3-3, quando o Bahia tinha a posse de bola, o esquema automaticamente migrava para um 3-5-2, com Mingo se tornando o 'senhor' do setor esquerdo, avançando para dar suporte para a construção ofensiva, 'alargando' o campo e abrindo o corredor. Essa dinâmica oferecia segurança para Erick Pulga atacar em velocidade e permitia que Luciano Juba construísse o jogo por dentro como um elemento articulador. Juba até tentou fazer o de sempre, marcou de pênalti, mas foi muito apagado durante todo o jogo. Sem essa peça de apoio, o corredor esquerdo perdeu fluidez e agressividade e foi praticamente nulo contra o Remo.
Importante também destacar o bom jogo de Jean Lucas. Voltou a se destacar pela parte física e técnica, pisou na área, fez gol, ganhou diversos duelos individuais, recuperou bolas. Parece que reencontrou o bom futebol e a felicidade em jogar com a camisa tricolor. Que siga evoluindo e volte a brigar pela titularidade com suas melhores armas. Vai ser interessante se isso acontecer, já que Nestor e Erick têm jogado muito bem.
Três zagueiros e a sobrecarga na direita
Buscando alternativas dentro do elenco à disposição, Ceni testou uma formação com três zagueiros: Kanu atuou deslocado pela esquerda, David Duarte assumiu a sobra central e Marcos Victor fechou o setor pela direita, sacrificando Román Gómez no banco de reservas. A alteração fez com que o Bahia se tornasse um time visivelmente assimétrico e dependente de um único lado do campo. A produção ofensiva concentrou-se quase em sua totalidade pela extrema direita.
Sem a presença de Román para dobrar a marcação ou dar opção de ultrapassagem, o setor dependeu do empenho físico incansável de Kike Olivera. Atuando com vigor de um verdadeiro "pulmão de ferro", o ponta uruguaio foi o destaque individual da partida, cobrindo o corredor de ponta a ponta, participando diretamente do primeiro gol e levando perigo constante à área adversária. Por outro lado, a ponta esquerda ficou praticamente desativada.
Apagado e sem o suporte de passes verticais que Mingo costumava oferecer, Erick Pulga pouco produziu, restando a Kanu apenas distribuição lateral e toques de segurança pela falta de cacoete para avançar como construtor e para participar da criação ofensiva e manutenção da posse de bola. E vale lembrar que Pulga não tem nem de longe o vigor físico de Kike, o que escancara ainda mais o buraco entre a defesa e o ataque pela esquerda, deixando inclusive Nestor, que vive bom momento, apagado e meio perdido em campo.
Domínio incompleto e os riscos diante de rivais da elite
No primeiro tempo, a nova disposição tática funcionou para impor o comando das ações e construir a vantagem no placar. Contudo, o Bahia não conseguiu sustentar o controle do jogo na etapa final e acabou caindo na armadilha da passividade. Em vez de matar a partida quando teve espaço, o Tricolor recuou sem necessidade, aceitou a pressão do Remo e terminou o confronto no limite, sofrendo sustos evitáveis diante de um adversário que não vivia sua jornada mais inspirada.
Leia Também:
Se a fragilidade na recomposição pelo lado esquerdo passou impune neste momento, o cenário exige alerta máximo para os desafios seguintes. Diante de um oponente com maior poder de fogo e repertório de transição, como o Athletico Paranaense, atuar com um zagueiro improvisado e desconfortável, tendo que preencher a lateral quando Juba cai pra zona central do campo, é um convite ao perigo. A tendência natural é que equipes mais qualificadas explorem intensamente as costas de Kanu até que o setor encontre a devida estabilidade. O ex-capitão tem o costume de jogar pelo lado esquerdo da defesa, mas não tem características para fazer a função de Mingo, que vai muito além de 'zagueirar'.
Variação necessária na busca pela América
Por outro lado, há um mérito indiscutível no movimento feito por Rogério Ceni. Após duas temporadas de apego quase inflexível ao mesmo desenho tático, o treinador demonstra flexibilidade ao colocar em prática formações alternativas, variando entre o 4-3-3, o 3-4-3 e o 3-5-2. Essa imprevisibilidade adiciona uma camada de complexidade para os analistas adversários, que já não entram em campo sabendo exatamente como o Esquadrão irá se estruturar em campo.
Ajustes são urgentes para impedir que o lado esquerdo siga fragilizado, mas o panorama geral permanece altamente promissor. O Bahia segue competitivo, firma-se no grupo de cima do Brasileirão e mostra repertório para somar pontos mesmo durante o processo de reformulação. O caminho para a vaga na Libertadores passa justamente por essa capacidade de corrigir as rotações sem perder o embalo das vitórias. E a sequência que está por vir será a prova de fogo do Bahia: Athletico (fora), Palmeiras (fora), Mirassol (casa) e Flamengo (casa).


