Busca interna do iBahia
HOME > ECONOMIA

MELIPONICULTURA NA BAHIA

Ouro do Sertão: como 'mel milagroso' virou força econômica na Caatinga

Além de escudo contra doenças, mel de espécie nativa é nova potência econômica para produtores

Carla Melo
Por
| Atualizada em
Frieseomelitta
Frieseomelitta - Foto: Cristiano Menezes | USP

A história do produtor Vanivon dos Santos Dias, 47, não é tão difícil de se decifrar: viveu do mato desde criança.

Foi em uma vida marcada pela dificuldade diante da seca, da escassez de água potável e da falta de acesso a programas de transferências de renda, que Vanivon sobreviveu. Ele e toda a sua família, na Fazenda Quixaba próxima ao povoado de Pedra Branca, zona rural da Bahia.

Tudo sobre Economia em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

“Comecei a estudar quando eu tinha 15 anos e conclui com 27 anos de idade. Não tínhamos transporte e a nossa escola era em uma casa de farinha. Nossa forma de sobreviver era através da roça, plantando e colhendo quando dava. Nascemos em uma comunidade carente, num lugar isolado que só tinha poucos moradores, difícil. Eu e meu pai passávamos o dia todo no mato caçando para pegar algum animal, bebíamos água de cacimba, dividindo a água com os animais”, inicia o produtor.

Fazer da abelha o mel

Não demorou muito para que a vida do pai espelhasse na de Vanivon. Nas andanças pela Caatinga, o produtor também começou a se interessar pelas abelhas, uma das riquezas na Bahia.

“Já tinha noção de como era criar abelhas e fui andando no mato, fazendo resgate e juntando. Cheguei a um bom número de abelhas. Em 2017, a convite de um colega meu, fui para o 1º encontro baiano de meliponicultura e lá eu comecei a ver as abelhas nas caixas. Me apaixonei e decidi que ia trabalhar com as abelhas sem ferrão”

Esse foi o início da paixão de Vanivon, que o tornou inseparável das suas pequeninas.

As abelhas são minha vida

Vanivon dos Santos Dias - meliponicultor

Ele já criava 200 abelhas, quando em 2017, começou a se estruturar e criar meliponários de palha - abrigos especialmente projetados para a criação e manejo de abelhas nativas sem ferrão (ASF). Os investimentos com os meles permitiu ao produtor comprar espaços mais padronizados para receber ainda mais abelhas.

A paixão foi ganhando forma e nome, até que o “Meliponário Palácio das Nativas” tornou-se referência para o manejo e criação de abelhas nativas numa pequena cidade, localizada a cerca de 360 km de Salvador.

Meliponários das abelhas
Meliponários das abelhas - Foto: Divulgação


É em
Monte Santo, um dos principais destinos religiosos da Bahia pela tradicional caminhada até o topo do monte e pelo resguardo da marca histórica do cangaço e da Guerra de Canudos, que entre os mais de 47 mil habitantes, Vanivon vai minando a cadeia produtiva fortalecida através do seu projeto com abelhas nativas.

Além da criação de suas abelhas, o produtor faz questão de cuidar de cada uma delas. Não é à toa que elas também desfilam livremente pelo quintal de sua casa. Elas também dão um show de elegância quando são apresentadas no Museu do Sertão, localizado na cidade, e feiras agropecuárias mundo afora. É a forma que Vanivon encontrou para enriquecer ainda mais o turismo e a cultura da região.

“Aqui é o centro de recuperação de abelhas mais fracas. Eu as trago para acompanhar mais de perto, ver o desenvolvimento dela ou se tem o forídeo, como está indo, se já nasceu a rainha”, explicou ele.

A experiência imersiva com as abelhas vai desde a apresentação sobre a vida das pequeninas até o momento mais aguardado entre curiosos e visitantes: a degustação diretamente da fonte. São milhares de olhos atentos que mergulham por um mundo novo e promissor da meliponicultura.

Degustação de mel de abelhas nativas
Degustação de mel de abelhas nativas - Foto: Divulgação


A
missão do meliponicultor começou como um pequeno negócio de venda de meles nada tradicionais e tornou-se uma grande aliada ao bioma, aos produtores rurais, à cultura nordestina e à saúde humana.

A descoberta do “mel milagroso”

Entre as abelhas que formam a diversidade da meliponicultura do Vanivon estão a mandaçaia, jataí, cupira e a moça branca, espécies altamente esplendorosas por seus valores energéticos e propriedades medicinais promissoras.

São 300 colônias de abelhas melíponas, sendo das seguintes espécies:

  • Mandaçaia (Melipona mandacaia)
  • Jataí (Tetragonisca angustula)
  • Cupieira (Partamona cupira)
  • Manduri (Melipona asilvai)
  • Mirim-Mosquito (Plebeia droryana)
  • Mosquito grosso (Plebeia sp.)
  • Lambe-olhos (Leurotrigona muelleri)
  • Moça- Branca (Frieseomelitta)

Esta última, em especial, tem despertado ainda mais a atenção de cientistas baianos, por suas descobertas nutricionais, principalmente nas funções preventivas contra doenças populares, como a diabetes.

Também conhecida pelo nome científico Frieseomelitta, a moça-branca é uma espécie nativa do Brasil, com forte presença nos biomas da
Caatinga e do Cerrado, principalmente em estados do Nordeste.

Sua nomenclatura está associada principalmente a sua aparência quando jovem. Quando recém-nascidas e jovens, as abelhas operárias apresentam uma cor esbranquiçada. À medida que tornam-se adultas, a coloração passa para um tom mais escuro.

Dependendo da florada - ciclos de floração que fornecem o néctar e o pólen das abelhas - e dos bioativos presentes do alimento, o mel da espécie também chama a atenção por sua coloração mais escura.

Diferente do que é popularmente divulgado em livros de ciências e em desenhos animados, os alvéolos das abelhas, como é conhecida as casinhas que abrigam os seus meles, se caracterizam por sua estrutura “em ovos” - pequenas cavidades arredondadas, ligadas umas às outras, como um sistema nervoso complexo.

Veja o vídeo

Pesquisadores baianos, entretanto, estão conseguindo desvendar ainda mais mistérios sobre a pequenina de pernas compridas: uma funcionalidade terapêutica e preventiva identificada em seu mel.

Antes, entretanto, de identificar a riqueza nutracêutica do mel da espécie, o estudo, encabeçado por Rogério Alves, professor do IF Baiano, buscou solucionar um problema sanitário e regulatório sobre as diferenças dos meles.

O projeto de pesquisa “Ciência na Mesa”, desenvolvido pela Escola de Nutrição e de Química da Universidade Federal da Bahia (UFBA), conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), do governo do Estado, e visa desenvolver pesquisas relacionadas ao apoio a cooperativas agrícolas e aos pequenos produtores.

A iniciativa também propõe ser base para construção de um regulamento junto com órgãos públicos baianos com objetivo de aprovar a comercialização do
mel das abelhas sem ferrão.

Rogério explica que, diferentemente do mel estrangeiro, o mel das ASF no Brasil costumam ter propriedades químicas que resultam na fermentação do alimento, o que é considerado “fora do padrão” pelos critérios sanitários e estéticos.

“Tentamos conseguir um selo para comercializar o mel, mas foi negado porque não obedecia os critérios dos meles. Mas os critérios atendem a um padrão exótico, ao padrão estrangeiro. De lá para cá, descobrimos que o nosso mel é diferente e que não é errado ele fermentar”, explicou o pesquisador.

O que faz o mel da abelha sem ferrão ser tão especial?

Enquanto o mel da abelha com ferrão, também conhecida como apis, possui mais açúcar e pouca água, as ASF produzem mel com mais água, o que pode causar, reunido com outros processos, a fermentação do mel. O clima do Brasil e as diferenças evolutivas da espécie também são fatores preponderantes para que a fermentação aconteça.

Como explica o agrônomo, após o processo de colheita, a abelha com ferrão consegue desidratar o néctar em até
28% de água e o coloca nos alvéolos - cavidades que compõem os favos de mel das abelhas.

Mel da Frieseomelitta
Mel da Frieseomelitta - Foto: Divulgação

“Dentro dos alvéolos, que é a mistura de cera com própolis, a abelha coloca o néctar, que basicamente é açúcares e minerais, e com a ação da levedura o transforma em outras coisas. Com a fermentação, o álcool é transformado em ácidos chamados de fenólicos, compostos que contribuem para a saúde humana e ajudam na regeneração de células e no combate ao micro-organismo”, explicou o pesquisador.

E esse processo é um dos mais comuns da Frieseomelitta, popularmente conhecida como moça branca, abelha branca ou mané-de-abreu, dependendo da região onde está localizada. O mel da espécie, através da fermentação consegue formar a trealose, um açúcar raro e natural que se destaca por ser absorvido lentamente pelo organismo.

O professor da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Luís Fernandes Pereira Santos, que agrega estudos químicos na pesquisa, ao lado de Rogério Alves, explica que esse composto, entretanto, não é comum entre outras espécies de abelhas.

Enquanto as outras abelhas produzem açúcares muito conhecidos como frutose e glicose, que são de alto pico glicêmico, que são de rápida absorção pelo nosso organismo - fontes potenciais de energia - essa abelha produz um mel terapêutico

Luís Fernandes Pereira Santos - professor e químico


Rogério Alves explica também que o mel da
Frieseomelitta doederleini foi considerado excepcional quanto a composição de fenólicos (trigonelina,fenilalanina e tirosina) do acúçar trealulose e compostos aromáticos.

A análise de 74 amostras de 35 espécies de abelhas sem ferrão realizadas pelos pesquisadores demonstraram o valor nutracêutico do produto genuinamente brasileiro.

Esse açúcar contém várias propriedades profiláticas, cujo objetivo é prevenir doenças ou impedir a sua propagação. Nas pesquisas, o mel da moça branca foi uma descoberta inédita, principalmente na presença de componentes que ajudam na prevenção das seguintes doenças:

  • Cáries
  • Alzheimer
  • Parkinson
  • Acidente Vascular Cerebral
  • Pressão baixa

“Uma colher desse mel por dia é mais do que suficiente, porque ele libera a energia paulatinamente, não libera de vez. Como o nosso organismo, o nosso intestino e as bactérias da boca não são capazes de digerir, porque ele é um açúcar que tem glicídios muito resistentes. Então o mel fica em nosso organismo por horas e vai liberando energia aos poucos”, explicou o químico.

Produtores x abelhas: uma via de mão dupla

A Bahia, em seus três biomas, é responsável por abrigar ao menos 60 espécies de abelhas nativas, como aponta o Guia de identificação de abelhas sem ferrão da Bahia, produzido pelo professor Rogério Alves e mais 12 pesquisadores e produtores baianos. Mais 10 estão sendo descobertas no território baiano, essenciais na para a propagação das espécies da fauna e flora.

“O trabalho que os meliponicultores fazem é de extrema e fundamental importância porque eles permitem que haja uma melhoria da genética dessas abelhas, que haja uma perpetuação, uma divisão melhor das caixas aumentando a quantidade de espécimes dessa região. Eles são verdadeiros guardiões das abelhas”, explicou Luís Fernandes.

É nisso que a meliponicultura Isabel Fróes Modercin também acredita, até que em 2020, ela fundou a Escola de Meliponicultura, uma instituição que forma, capacita e educa a criação e o manejo de abelhas sem ferrão na Bahia.

A bióloga de formação explica que apesar da criação da moça branca ainda serem raras, o interesse é de que produtores da espécime também produzam de forma comercial, o que fortalece a renda de famílias e também incentiva a regulamentação do mel.

“Alguns alunos da Escola de Meliponicultura e meliponicultores que eu conheço pela Bahia criam a abelha branca, tem uma, duas, três, cinco caixas de abelha branca, mas ninguém que eu conheço assim que realmente se dedica à criação dela e está trabalhando sistematicamente com a produção dessas abelhas.”

Educação ambiental transformadora

A Escola de Meliponicultura surgiu há seis anos, em 2020, na Ilha de Itaparica, na Bahia, durante a pandemia da Covid-19, com o objetivo não somente de formar novos meliponicultores, mas de incentivar a educação ambiental sobre a diversidade de ASF e do ecossistema em que elas vivem.

“Os meliponicultores passam a prestar atenção nas abelhas, nas floradas e nas mudanças de clima, e tudo isso reflete também na produção. Então a ideia é formar meliponicultores, fazer um pouco de divulgação científica, sensibilizar sobre a importância das abelhas e sistemas agroflorestais”, explicou a bióloga.

Imagem ilustrativa da imagem Ouro do Sertão: como 'mel milagroso' virou força econômica na Caatinga
Foto: Cristiano Menezes | USP


De acordo com Isabel, o manejo de abelhas sem ferrão na região ainda são desafiadores, mas ainda sim promissoras, e disso a bióloga entende de sobra, afinal, as
abelhas sem ferrão estão em sua vida há 23 anos.

“Crio abelhas nativas sem ferrão, desde o período da faculdade, quando comecei a estagiar num laboratório de abelhas, no laboratório de abelhas de uma empresa baiana de desenvolvimento agropecuário”, começa ela.

O que havia começado simplesmente como um teste de viabilidade da meliponicultura como parte de um sistema sustentável de produção de alimento, acabou virando um campo extenso de estudo sobre aspectos ecológicos quanto sociais e econômicos das abelhas sem ferrão.

Além de criar as ASF na Ilha de Itaparica, Isabel também as produz em Mata de São João, a 63 km da capital baiana, junto com uma amiga. Nos dois meliponários, a bióloga se divide entre a produção de mel e a educação.

A relação com as abelhas brancas se estreitou pouco tempo depois, quando a pesquisadora iniciou um projeto da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na terra indígena Brejo do Burgo e Pancararé.

“Fizemos o trabalho junto aos meleiros, que é como se chama as pessoas que tiram mel de abelha no mato, cortam a árvore ou o tronco para acessar os potes e tirar o mel, para desenvolver as técnicas de criação racional na caixa. Uma dessas abelhas, era a moça branca, que eles chamavam de ‘abeia mansa’. Era uma festa sempre tinha muito mel nos cortiços, nos troncos das umburanas”, relata Isabel.

Abelhas geram renda e cultura na Caatinga

Por muito tempo a Caatinga tem sido casa de uma das principais fontes econômicas da Bahia, a agropecuária. É dela que agricultores familiares e comunidades tradicionais têm construído fontes de renda e impérios com as riquezas do bioma.

Para Vanivon, a criação de abelhas sem ferrão tem prosperado desde o momento em que começou a criar as espécies. Com o ensejo de ter nascido de uma das cidades mais turísticas do estado, o produtor aproveitou o potencial para fazer turismo rural com as abelhas.

Imagem ilustrativa da imagem Ouro do Sertão: como 'mel milagroso' virou força econômica na Caatinga
Foto: Divulgação


O
Meliponário das Nativas recebe centenas de visitantes entre crianças, estudantes e especialistas de várias cidades baianas.

“Monte Santo tem época que recebe milhões de pessoas. E o meu projeto, que une turismo com a meliponicultura, nasceu. O meliponário é exibido no Museu do Sertão, que fica ao lado da subida da Serra, onde é muito visitado por turistas. Aproveito e vendo os meus produtos e ensino sobre as minhas abelhinhas. Isso foi crescendo e virou um sucesso”, continuou ele.

Museu do Sertão, em Monte Santo
Museu do Sertão, em Monte Santo - Foto: Divulgação

Além de vender os meles de Uruçu, Mandaçaia, Manduri, Jataí, que são as espécies mais comuns, Vanivon também vende o mel da moça branca, ou “perna comprida”, como é muito conhecida na região.

Apesar dos seus valores “milagrosos”, sua importância nutracêuticas ainda são pouco conhecidas e valorizadas. Para driblar esse cenário, Vanivon, e outros meliponicultores decidiram fazer ‘intercâmbio de mel’ para fortalecer o comércio entre os produtores, mas também incentivar a diversificação das abelhas.

“Eu mando mel para a região de Feira de Santana, de Santo Amaro para vender para turistas e trago mel de outros tipos de abelhas, que não tem aqui, para vender. Ela não era tão valorizada, mas no momento agora com essa descoberta, eu mesmo já tô segurando os meus meles para poder vender melhor”, brincou o produtor.

Diversidade de meles de abelhas sem ferrão
Diversidade de meles de abelhas sem ferrão - Foto: Divulgação

Apesar de ser um desafio grande, a luta e a paixão de Vanivon, Isabel e tantos outros produtores da Caatinga andam lado a lado. É da resistência que se tira o mel e é por novos desafios e oportunidades que eles aguardam que sertão não vire somente mar, mas também se finde na doçura de favos de mel.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Compartilhar no Whatsapp Clique aqui

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

Tags

Bahia economia Meliponicultura

Relacionadas

Mais lidas